O senso comum dos que não pensam.

Eu gosto de dividir as pessoas em três segmentos – as que pensam, as que fingem que pensam (o que já demonstra que elas tem noção de que o certo é pensar, o que faz com que elas sejam quase seres pensantes) e as que simplesmente não conseguem transmitir nenhum impulso elétrico por aquela rede de neurônios que desembocam no cérebro.

Esses seres não-pensantes formam aquela massa de acéfalos semianalfabetos que agem por impulsos inconscientes, quase como se fossem porcos bípedes, e o mais admirável que podemos esperar deles é que sobrevivam por alguns anos sem esquecer de respirar ou engasgar com a própria saliva.

É senso comum olhar feio para tudo o que essa massa não-pensante gosta. Pense aí em todas as coisas que é senso comum odiar: One Direction, Justin Bieber, Globo, Nicholas Sparks, Restart, Funk. Essa lista de coisas odiáveis poderia continuar ad eternum. Isso se dá pelo fato de que a quantidade de pessoas não-pensantes supera vexaminosamente a quantidade de pessoas pensantes no mundo. Costumamos achar que pensar é uma característica inerente ao ser humano, quando, na verdade, é uma qualidade que apenas uma porcentagem ínfima da população mundial detém.

E os semi-pensantes?

Esses são aqueles seres que possuem uma dificuldade absurda de pensar, talvez por terem passado a maior parte da infância comendo cocô, mas, ao chegarem em determinado ponto da vida, perceberam que pensar talvez fosse uma atividade minimamente legal. E aí eles se esforçam, mas de forma errada: seus cérebros parcialmente desenvolvidos os fizeram chegar à conclusão de que fingir que pensam é muito mais fácil e rápido do que realmente pensar. São, na nomenclatura recente, os hipsters. Há uns 5 anos, eram os cults, e há uns 10 anos certamente tinham um outro apelido.

Esses grupos são aqueles que estão mais preocupados em compartilhar uma frase do Caio Fernando Abreu do que em realmente ler um texto do cara. Eles saem por aí reproduzindo comentários absurdamente embasados sobre livros e músicas que eles leram em algum lugar e pensaram “wow, se eu repetir isso as pessoas vão me achar inteligente”. Eles não se esforçam, em momento algum, para elaborar um comentário inteligente de própria autoria. Até por que, quando tentam, sua capacidade mental limitada os faz angariar, no máximo, um texto incoerente com umas palavras bonitas utilizadas fora de contexto.

Eles ainda se dão ao direito de bater no peito e creditar a si mesmos o título de inteligentes. Estão, claramente, reproduzindo um processo natural do ser humano que se repete desde a Grécia antiga, quando o Sócrates, teoricamente, disse “só sei que nada sei, e o fato de saber disso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”. Os que achavam saber foram esquecidos. Sócrates não.

Existem, por fim, as pessoas inteligentes. Percebam que essa é uma classe humana de grande valia e de raríssimo encontro. Abrange aquele grupo de pessoas que, de fato, leem bastante, mas sequer saem por aí bradando a quantidade de livros que já leram. São pessoas que, de fato, entendem de filosofia, mas nem por isso saem por aí com uma barba gigantesca falando sobre Marx. Esse tipo de pessoa, por ter a capacidade plena de formular as próprias opiniões, pode ouvir desde One Direction e ver alguma qualidade naquilo, quanto segundos depois ouvir Bethoven e entender claramente o que ele tentava transmitir em suas composições.

Entendam uma coisa – pessoas realmente inteligentes não desmerecem nenhum trabalho. Afinal, se de alguma forma aquele trabalho é valorizado por alguém, é por que ali tem alguma beleza. Semi-pensantes não conseguem enxergar isso, mas xingam com plena facilidade diversas obras.

Em que ponto eu pretendo chegar com isso?

Hoje eu fui na Bienal do livro – ou BiAnal, como eu dizia na época em que era socialmente aceito eu achar engraçadíssimo o trocadilho ainda acho, mas com 18 anos é feio – e, por muitos momentos, odiei o evento. Vocês também odiariam em primeira instância. Precisava entrar numa fila para entrar numa segunda fila que permitiria entrar no stand no qual, se você quisesse comprar algo – que, contradizendo toda a lógica do universo, estava quase o dobro do preço de lojas como submarino -, teria que se direcionar para uma terceira fila, sendo que nenhuma delas demorava menos de 45 minutos. O ar era rarefeito e você não conseguia ficar 5 segundos parado sem ser empurrado por algum apressadinho. Isto é, se você conseguir manter seus amigos próximos por mais de 5 minutos sem perdê-los.

Observando aquele contingente infinito de pessoas, percebi que, há 2 anos, na última bienal, não havia sequer dois terços daquilo tudo de gente. E aí pensei cá com meus botões – ah, mas ler virou modinha. E, por alguns instantes, aquilo também soou muito mal na minha mente.

Cacete, que bela bosta, ein?

O ato de ler se tornou aquela banda desconhecida que você ouvia e caiu no gosto popular tão rapidamente que você sente como se estivesse sendo traído. Ler, que antes era um diferencial de poucos que sabiam pensar, virou modinha. A bienal estava lotada por milhares de meninas virgens gritando pelo livro do One Direction, milhares de mulheres gritando pelo Nicholas Sparks, milhares de velhas ansiando livros do Chico Xavier, milhares de nerds se estapeando pelos volumes do Game Of Thrones, milhares de moleques brigando pelos livros do UFC.

Uma conhecida reclamou que tinha um stand “lotado de menininha gritando pelo Sabado à Noite”. Fiquei feliz por saber que a lindona da Babi Dewet tava ficando tão rica assim, e triste por perceber que aquela conhecida era mais uma semi-pensante – ela estava ali, com seus livrinhos, mas tava desmerecendo o gosto alheio sem perceber que, quando ela tinha 13 anos, certamente lia Thalita Rebouças ou coisas piores.

Ler virou modinha. Comprar livro, agora, é um requisito necessário pra “fazer parte da galera”. Segunda, na sala de aula, todos vão comentar o livro que “estão lendo”, por mais babaca que possa ser. Amanhã, quando acordarem, todos entrarão no perfil do Skoob no facebook e compartilharão aquelas tirinhas babacas falando sobre “o cheiro dos livros”, e todos eles pagarão de cultos super antenados. Tornar-se-ão, por fim, semi-pensantes com aspirações de um dia, quem sabe, pensar. Ou não.

Um paralelo interessante é pensar nos protestos que rolaram a alguns meses. A partir do momento em que virou um movimento da massa acéfala, a maioria desacreditou. Os pensantes, por outro lado, previram que, dali, surgiria um grupo de pessoas que se politizariam. E, por mais que poucos, ainda vemos por aí adolescentes comentando “e os médicos, ein? Cuba, né? Foda.”.

Seja Querido John ou Gaia Ciência, ler é sempre o primeiro passo para que um ser não-pensante angarie uma carteirinha do grupo dos semi-pensantes. E ninguém se torna pensante antes de ser semi-pensante.

Parem de reclamar.

Os inteligentes jamais serão a maioria. Mas o mundo tá no caminho certo.

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11 Responses to “O senso comum dos que não pensam.”


  1. 1 Isadora 01/09/2013 às 5:04 am

    ae, almeida! falou tudo que eu penso! o pessoal reclama demais. bom te ver escrevendo de novo 🙂

  2. 2 Carol 01/09/2013 às 3:29 pm

    Pode ser que os erros grotescos de gramática no Facebook diminuam com essa “modinha de leitura”, ao menos (:

  3. 3 Carolina 01/09/2013 às 5:14 pm

    Texto maravilhoso!

  4. 4 Cami 02/09/2013 às 12:31 am

    “Seja Querido John ou Gaia Ciência, ler é sempre o primeiro passo para que um ser não-pensante angarie uma carteirinha do grupo dos semi-pensantes. E ninguém se torna pensante antes de ser semi-pensante.” Obrigada por expressar exatamente o que eu acho. A sua escrita amadureceu pra caralho. Não lia o blog há um ano, se não me engano, e agora voltei pro lugar em que eu me sinto mais em casa do que a minha própria casa (???) e… parece que você cresceu uns 5 anos. Tá de parabéns, mesmo.

  5. 5 Gabi 02/09/2013 às 4:48 pm

    O ato de ler se tornou aquela banda desconhecida que você ouvia e caiu no gosto popular tão rapidamente que você sente como se estivesse sendo traído.

    hahhhaha me identifiquei ><

  6. 6 Pablo Martins Balieiro 03/09/2013 às 8:17 am

    Sério, me passa o endereço da loja onde você comprou o contrato que te concede o direito de separar e categorizar assim quem quer que seja. Tô precisando, ando muito de bem com a vida, quero ser mais babaca com o mundo 😛

  7. 7 Yasmin 08/09/2013 às 11:13 pm

    “Entendam uma coisa – pessoas realmente inteligentes não desmerecem nenhum trabalho. Afinal, se de alguma forma aquele trabalho é valorizado por alguém, é por que ali tem alguma beleza.”

    Primeira pessoa que eu vejo que consegue entender isso. Fala que o Lennon era foda todo mundo concorda, fala que o Mr. Catra é um gênio nego te olha torto. Quanta gente me julga por achar o Justin Bieber absurdamente mais interessante que o Ozzy Osbourne, sem nunca ter ouvido qualquer coisa sobre algum deles além de comentários alheios. Que mania chata que as pessoas têm de querer limitar tudo com rótulos babacas. Se você gosta de futebol é favelado analfabeto, se gosta de Beatles é inteligente, se gosta de sexo é pervertido. Taquepariu.

    Mas eu concordo: apesar de tudo, o mundo tá no caminho certo. Boto fé nos hipsters “fãs” de Caio Fernando Abreu, nos “revolucionários” do Passe Livre e todos os outros pseudos, porque uma coisa leva a outra. E se olhar pra trás, a gente já evoluiu pra caralho.

  8. 8 raquel 13/09/2013 às 9:59 pm

    leia o que for, leia..
    e para o Pablo, categorizar é uma estratégia de construção de discurso, uma das mais utilizadas diga se de passagem, por ajudar o escritor/discursante a fazer um argumento com inicio meio e fim..

    enfim,eu gostei do texto, a esperança de que um dia as pessoas pensem ainda vive em mim

  9. 9 Maria 11/11/2013 às 2:05 am

    Ta sumido hein

  10. 10 Sarah 03/01/2014 às 6:59 am

    Acho que um ser pensante também não julgaria a massa não pensante, pois entenderia que ela não é assim porque quer, mas porque foi levada a agir assim.

  11. 11 Adrian tepescu 30/01/2014 às 7:18 pm

    Belas Palavras

    Agora um questionamento:

    E votar? é sinal de inteligência?

    Caso o sim seja a resposta, eu me pergunto se o sr votou, e em quem votou, … daí eu poderia deduzir (não induzir, rsrsrsrs) que apesar de ser um ser pensante, o sr deve , muito provavelmente , ter cometido um equívoco, daqueles que um ser pensante , não cometeria!!!!!!!,


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Um rolê em Madureira: 918 e 919 nunca tiveram uma diferença tão grande na minha vida. Essa diferença somado com a insano desejo do destino de me foder, causou uma peripécia de tremer as cuecas.

Ensino Médio deturpando sonhos:

Apesar do Ensino Médio ser repleto de conhecimentos babacas os quais nunca terão a menor utilidade em nossas vidas, ele pode desmentir algumas informações as quais fizeram você acreditar ser verdade por toda sua vida.

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