Treta no Busão

Nos últimos três dias eu desbravei as fronteiras geográficas do Rio de Janeiro e fui diversas vezes para a Barra da Tijuca – que, para os desavisados, é, na falta da uma palavra melhor, um lugar horroroso. Mas, por algum motivo, o destino me fez ter grandes amizades lá e vez ou outra algum evento ocorre (como o musical em que fui hoje).

A ida para lá é um martírio. O ônibus é cheio, é quente, as pessoas são feias, os lugares são ruins e engarrafados, e ele ainda fica se metendo em um monte de ruazinha até que BUM, tal qual uma ejaculação precoce no dia em que a excitação foi mais alta que o bom senso e vocês não usaram camisinha, o ônibus chega à barra. Eu sempre vou com meu livrinho, minha musiquinha e mal percebo a viagem, mas acredito que para pessoas não-tão-autistas seja um sacrifício.

A volta, por outro lado, costuma ser mais fácil. Volto de noite, quase sem ninguém no ônibus, sem trânsito e a escuridão me impede de ver os transeuntes horrorosos da Freguesia. Ah, a Freguesia. Um rápido adendo sobre a Freguesia – que lugar lindo e charmoso é aquele, amigos. Anteontem o ônibus teve que parar no meio da rua pois um PORCO e um CAVALO estavam atravessando a rua. E foi lá também que entrou a moça que protagonizará a história que se segue.

Era noite de um sábado e eu estava voltando de uma peça que tinha ido assistir na Barra. Logo atrás de mim tinha um boiolinha, daqueles gays bregas que se agregam a coisas que “todo gay gosta” apenas pra mostrar que está na moda. Digo isso não só pelo jeito nojentamente abichalhado dele falar, mas por ele dizer que a última atuação da lady gaga foi um ab-sur-do (mesmo que ele não tenha gostado da peruca, por que a cor não combinava com ela), e que ele chorou por horas com o término do My Chemical Romance (que, quando perguntado “ué, e você gosta deles?”, ele respondeu “só conheço uma música, mas gosto muito dela”).

Ia seguindo viagem ouvindo as escatologias verbais que o rapaz soltava atrás de mim, quando, de repente, começa. “Deixa fechada, por favor” uma moça disse já com a voz exaltada. “Não, minha filha, vai ficar aberta”, respondeu uma outra voz de mulher. “Aberta é o caralho, que coisa!”, a primeira voz. Ao som daquele sonoro e bonito “caralho”, todo o ônibus se virou para observar o conflito que emergia.

Acontece que uma loira estava embaixo da janela e, como estava chovendo, mantê-la aberta a molhava. A velha, sentada na cadeira de trás, se achava no direito de manter sua janela fechada, abrir a janela da frente e molhar a loira e foda-se. A velha tava evidentemente errada, mas quem é que liga pros fatos aqui, né?

Depois do “vai ficar aberta” e “não vai não”, a velha, não bastando já estar errada, ainda xinga a loira de piranha. MEUS AMIGOS. Aquele “piranha” foi mais sonoro que uma enxurrada de caralhos gritados dentro de uma igreja no horário da catequese das crianças com um megafone.

E a loira percebeu isso. A mulher levantou na mesma hora, meteu o dedo na cara da velha e começaram a discutir. “Piranha” tinha virado ofensa de uma discussão entre crianças com síndrome de down perto do palavreado que as duas tavam usando. “Você me desrespeitou mimimi” dizia a loira, com os peitos saltando pra fora daquele decote gigantesco que não a desrespeitava nem um pouquinho, enquanto a velha respondia “MIMIMI SUA PIRANHA MIMIMI”.

Até então todo o ônibus observava atônito. Sempre que rola essas discussões tem um babaquinha pra separar, o que é uma merda. Torço invariavelmente para as brigas ficarem o mais feias possíveis, com sangue e cadáveres, se possível. Desta vez, ninguém separava ou tentava argumentar qualquer coisa perante a velha e a loira, que continuavam se xingando e se ofendendo como se se odiassem há 18 anos.

E então o ápice – a loira fecha o punho, pede ajuda à sua constelação do zodíaco e voa UMA SÉRIE DE SOCOS na cara da velha. Sim, amigos, eu presenciei uma loira SOCANDO uma velha por causa de uma janela. A velha permaneceu sentada, reclamando e xingando a loira, que a essa altura já praticamente tava em cima do banco, lançando uma série ininterrupta de meteoros de pégasus no rosto da coroa.

PIRANHA U SAID/

Nessa hora o ônibus transformou-se em um estádio e todo mundo tomou partido e começou a torcer para uma – eu, pessoalmente, tava torcendo pela loira por que a velha era muito folgada e eu não gosto de velhos em ônibus justamente por serem muito folgados. Sem contar que a loira era um espetáculo (mesmo sendo da Freguesia, blerg).

MAS É LÓGICO que diversão de pobre dura pouco. E aquele cara sentado no fundo do ônibus com um abada do chiclete com banana não podia se contentar em apenas ter um gosto musical pavoroso, ainda tinha que  apartar a briga. O bom – e é por isso que essa história é tão boa, quando você acha que acabou, ainda tem mais – é que, na tentativa de apartar a briga, a loira começou a brigar com o cara do abada também!

E eis que, a partir daí, todo o ônibus começava a torcer pela velha e pelo rapaz de abada, menos eu, que continua fielmente mandando boas vibrações para a loira e pros seus peitos que já estavam quase escapando daquele decote. E quando eu digo “todo mundo”, é sem exceções – o motorista tinha parado o ônibus e tava observando a briga minuciosamente, vez ou outra vociferando alguma coisa que ficava abafada pelos xingamentos e pelas Olas que eu tentava puxar com a galera.

/o/ o o/

O boiolinha atrás de mim, aliás, tava toda emperequetada com a situação e já ficava falando “ai, amiga, se fosse comigo eu ia fazer isso e aquilo e ia dar uns tapas nessa menina, jogava ela no chão e quero ver quem ia me parar”.

E é aí que você percebe que o ser humano é uma criatura filha da puta mesmo – uma morena levanta do meio da muvuca com o celular pro alto e fala “Ô MINHA SENHORA, já liguei pra delegacia, no próximo ponto tem uma viatura esperando pra você levar esta loira pra delegacia”. Imagino que naquele rabo gigante da loira tenha ficado rígido com aquela informação. Assim que o motorista parou no ponto seguinte e abriu a porta de saída para os passageiros descerem, a loira PULOU PRA FORA DO ÔNIBUS e saiu correndo tal qual Usain Bolt em direção ao banheiro depois de uma feijoada – lembrando que estava caindo uma chuva daquelas que metade da favela vem abaixo.

Tenho certeza que naquele pique que ela deu os peitinhos saíram do decote, mas não pude observar com maior precisão de detalhes.

Três pontos à frente, era minha vez de sair do ônibus e, quando me dirigia à porta, um menino me parou, apontou pra minha camisa (que era da Fresno) e disse: Fresno é vida, melhor banda de todas.

Preciso pegar esse ônibus mais vezes.

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17 Responses to “Treta no Busão”


  1. 1 Isadora 24/03/2013 às 4:08 am

    esse tipo de coisa só acontece contigo, cara. UAHSUAHSUHASUHAS

  2. 2 Yasmim 24/03/2013 às 4:18 am

    No começo do ano eu estava no NorteShopping e uma senhora e uma menina começaram a brigar por causa do banheiro. Mas infelizmente eu não pude ficar pra ver se ia rolar sangue =(

  3. 3 misia 24/03/2013 às 5:09 am

    hoje uma velhinha deu um pau em duas menininhas de uns 10 anos por furarem a fila do banheiro, com direito às mesmas dizerem “nossa mae nao ta aqui” sendo que a mae estava do lado de fora esperando, torci pela velhinha.

  4. 4 raquel 24/03/2013 às 4:57 pm

    putz, esse post foi muito machista e preconceituoso, não gostei nada

  5. 5 Mayara 25/03/2013 às 12:49 am

    Morri UHASIUASHIUASH adoro ver essas brigas por motivos fúteis.

  6. 6 Gabriela 25/03/2013 às 1:45 am

    Muito bom o post, incrível como essas situações engraçadas te perseguem Almeida (ainda que, pelo menos dessa vez, tu não se fodeu no final)
    Ah, tô ainda tentando entender o “machista e preconceituoso” do comentário acima.

  7. 7 Maari_xx 25/03/2013 às 10:54 pm

    Cara, vou começar a andar nos mesmos lugares que você pra ver se minha vida fica mais animada HAHAHAHAHAHA SÓ acontece com você, Meidoca.

  8. 8 Gabi Casares 26/03/2013 às 10:49 pm

    Se você puder ir até o metrô de Del Castilho, pega o 614, que vai até a Alvorada. Não entra em um bequinho sequer, vai pela Linha Amarela, quase nunca tá cheio, é rápido e tem ar-condicionado.
    Só nunca vi uma história dessas rs

  9. 9 almeida 28/03/2013 às 1:38 am

    Vivo fazendo isso, mas a passagem é bem mais cara, e eu tenho que pegar um busão até lá… fica bem caro e também demora :c

  10. 10 Juliana. 28/03/2013 às 1:45 am

    Você é uma pessoa tão escrotamente fodida que faz ter uma vida fodida parecer legal.

  11. 11 Leticia 31/03/2013 às 3:41 am

    Só com você mesmo! haha

  12. 12 Gabi Casares 02/04/2013 às 11:32 pm

    Entendi… no meu caso vale a pena, porque eu moro na Barra e meu pai em Vista Alegre, não tem ônibus direto mesmo rs

  13. 13 Clarissa 08/05/2013 às 12:05 am

    Você escreve muito bem, e seus contos ficam pra lá de cômicos, cara. hahahaha

  14. 14 Lívia Martins 08/05/2013 às 12:05 am

    Hahaha sua vida é muito engraçada hahaha
    E você escreve muito bem 🙂

  15. 15 Ana Paula 08/05/2013 às 12:07 am

    Será que só eu imaginei sua cara olhando pra tudo enquanto lia a história? aaahahahahah muito engraçado, você é um louco legal! hahahaha

  16. 16 Karina 08/05/2013 às 12:08 am

    “Fresno é vida, melhor banda de todas.” imagino tuas emoções numa hora como essa hahaha e amo tuas histórias

  17. 17 Isabela 08/05/2013 às 12:10 am

    Tenho uma imaginação muito fértil e mesmo assim não consigo assimilar uma loira batendo em uma velha hahaha


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Um rolê em Madureira: 918 e 919 nunca tiveram uma diferença tão grande na minha vida. Essa diferença somado com a insano desejo do destino de me foder, causou uma peripécia de tremer as cuecas.

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Apesar do Ensino Médio ser repleto de conhecimentos babacas os quais nunca terão a menor utilidade em nossas vidas, ele pode desmentir algumas informações as quais fizeram você acreditar ser verdade por toda sua vida.

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