Quem é teu Deus?

(Não é um texto de religião, amigo. Calma.)

(((INAUGURANDO a sessão Filosofia Barata, que outrora era minha coluninha no site NSN:Br, mas que agora postarei aqui também. São textos mais sérios e reflexivos sobre coisas que a gente pensa quando percebe o quão idiota é tudo o que a gente pensa no resto do tempo.)))

Começo o texto fazendo essa pergunta não só aos religiosos – pessoas que seguem qualquer religião -, mas aos ateus também. A tua estranheza sobre essa pergunta é justamente o assunto desse texto.

Eu sou adepto de uma teoria (que formulei depois de ler alguns textos de Nietzsche e de Freud) ((aliás, caralho, quão prepotente é um cara que lê trechinhos de Nietzsche por hobby querer formular uma teoria sobre a humanidade?)) que é basicamente assim: o ser humano é oco. Independente de nossa religião, precisamos creditar nossas alegrias, nossas esperanças, nossas expectativas, em alguma coisa. Somos impotentes para simplesmente acreditarmos em nós mesmos como perfeitos, então criamos imagens de perfeições que nos encham por dentro.

Religiosos adotam a imagem de Deus como perfeita. E os que se dizem agnósticos e ateus? Todos criam, inclusive eles – é uma característica intrínseca do ser humano.

Vou exemplificar comigo: eu sou agnóstico e tenho um sério problema com mulheres.

Sempre que eu gosto muito de uma mina e ela me magoa, eu fico meses – até anos – pensando naquela menina como se ela fosse perfeita. Imagino-a sem defeitos, como se fosse minha parceira perfeita, alma gêmea, e o fato de não estarmos juntos seja um mero acaso do destino.

Eu não sou o único, aliás. Caio Fernando Abreu tava no mesmo barco:

“Sabe, eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas(…)”.

Tudo o que me instiga um mínimo de felicidade, eu associo à moça. Não é de se estranhar que, sempre que vou me envolver com alguma nova menina, começo a compará-la com a antiga.

A projeção não é constante, ainda que seja duradoura – fiquei dois anos pensando em uma menina, me apaixonei por outra, esqueci a primeira e hoje projeto a segunda. No livro Quando Nietzsche Chorou, escrito por um dos mais renomados terapeutas da atualidade, um dos personagens passa pelo mesmo:

– Você atribui ao seu amor algo que é a sua própria realização.

– O que quer dizer com isso?

– Que continua tão sozinho como antes, tão sozinho como cada pessoa está fadada a ser. O amor fabrica seu próprio ícone para, depois, ser protegido por ele. Talvez sejamos mais religiosos do que pensamos.

Ainda que soe estranho e errado, essa é uma situação que se repete com todos. Meninas de 13 anos ignoram a existência da religião e projetam seus sonhos nos Jonas Brothers, depois no Justin Bieber, depois no One Direction. Homens associam a perfeição e a felicidade ao dinheiro, ao status, ao carro do ano. Idosos, a Deus – não por estarem mais próximos da morte e se preocuparem em ir pro inferno, como dizem alguns, mas por terem associado a felicidade a tantas coisas na vida e não tê-la obtido em nenhuma delas, então a associa em algo inalcançável para não morrer na decepção.

Essa eterna necessidade de encher-se de algum sentimento de felicidade é um dos egoísmos mais primitivos e escrachados de nossa personalidade, e é por isso que tentamos tanto maquiá-la ou escondê-la (inconscientemente até), alegando apenas que “ouvimos um artista por que gostamos”, ou que “sentimos falta de uma pessoa por que ela era especial”, e nunca que “fazer isso me tira um pouco da angústia de não saber o que eu quero”. O egoísmo é tamanho que nos envergonha.

Schopenhauer diria que a única forma de nos livrarmos desse vazio seria encontrar o afago em nosso próprio âmago. Parar de depender de amizades, de idealizações, de imagens – dependermos apenas de nós mesmos e daquilo que nossa mente pode nos oferecer.

Não me estranha ele ter morrido sozinho.

Mas e você? Qual o teu Deus?

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25 Responses to “Quem é teu Deus?”


  1. 1 Vinícius Nesi 18/02/2013 às 12:18 am

    já to imaginando o número de fãs dizendo q comentaram primeiro

  2. 2 isabela 18/02/2013 às 12:22 am

    Esse texto ficou muito bom.

  3. 3 Alizoneto 18/02/2013 às 12:23 am

    Infelizmente temos o mesmo problema Almeids, além do sobrenome :v

  4. 4 Ana Carolina F. 18/02/2013 às 12:26 am

    Mt bom! Na real, meio que sempre pensei na mesma linha, curti de verdade

  5. 5 Isadora 18/02/2013 às 12:27 am

    muito bom o texto, almeida! sou agnóstica, mas eu sempre acreditei na fé, seja no que for. no meu caso, a fé é em mim mesma.

  6. 6 carol 18/02/2013 às 12:31 am

    e mais uma vez se confirma o fato de que: tu escreve bem pra caralho!! ficou mt bom o texto e realmente abre nossos olhos pra esse lado que muitos nunca devem ter pensado…

  7. 7 Gabriela 18/02/2013 às 12:32 am

    Nunca sei ao certo o que comentar, but ótimo texto almeids, aliás um dos melhores e mais intrigantes que já li por aqui. Acho que você não é o único a fazer isso com pessoas amadas :(. Enfin, parabéns

  8. 8 Vinícius Nesi 18/02/2013 às 12:44 am

    Ótimo texto, ajuda a iniciar uma reflexão interna.
    ”Idosos, a Deus – não por estarem mais próximos da morte e se preocuparem em ir pro inferno, como dizem alguns, mas por terem associado a felicidade a tantas coisas na vida e não tê-la obtido em nenhuma delas, então a associa em algo inalcançável para não morrer na decepção.”
    Nunca tinha parado pra pensar assim, e no momento parece ser mesmo verdade.. brilhante.
    Mas só uma coisa q n entendi.. seu ‘Deus’ então são as mulheres ou só foi um exemplo explicativo?

  9. 9 Brubs 18/02/2013 às 12:44 am

    Bom texto, tô aqui com meus botões refletindo sobre ele ainda. Acredito (e tenho) fé em Deus, mas tem coisas que eu meio que não tolero em algumas religiões, talvez o motivo de eu não me identificar com nenhuma. Apesar da crença, tem uma infinidade de coisas que sei que se eu não levantar da cama e resolver, vão ficar lá acumulando teias de aranha. Nada vem de graça. Não sei até que ponto vai a minha fé e, por enxergar uma centena de coisas que não são provenientes da mesma, eu acredito que ela não seja lá tão grande assim.
    Espero voltar com uma certa frequência nessa coluna em especial pra ler coisas novas, curti muito =)

  10. 10 Mariane 18/02/2013 às 12:44 am

    Ótimo texto, Meids. Sou agnóstica e adepta da teoria de que Deus é energia.

  11. 11 Maari_xx 18/02/2013 às 1:09 am

    Muito bom o texto. Não consigo nem falar nesse momento porque estou refletindo. Esse é aquele tipo de texto que te faz problematizar.

  12. 12 Izabelli 18/02/2013 às 1:17 am

    Excelente texto, sad but true. Me fez problematizar a vida, me vi inteirinha.

  13. 13 @ifuckaw 18/02/2013 às 1:42 am

    Texto muito bom. Escrito de uma maneira leve e com um assunto que causa identificação. Meus parabéns, Almeida.

  14. 14 Fmattosa 18/02/2013 às 2:58 am

    Gosto dos posts que você faz nesse estilo Almeida.. Esses post meio crítico/filosofo, sabe? ASHAHSHASSHASHSHSHS
    Uma vez me disseram “Igreja é a terapia da mente e da alma”, e concordo, o fato de você acreditar que existe algo maior, melhor e que vá de proteger, te ajudar e te orientar.. Seja Deus, Super-homem ou os Jonas Brothers, faz a pessoa ter aquele conforto…
    Enfim, belo post, Almeida.

  15. 15 Andréa Bodanese 18/02/2013 às 3:11 am

    Apesar de ser algo que todos passamos – projetamos os nossos sonhos em outras pessoas, -, não pensamos muito nisso. Eu mesma nunca tinha parado pra pensar por esse lado.
    Parto do princípio de que acreditar em algo, sendo Deus ou não, é uma das coisas mais importantes pro ser humano. Quem gosta de viver se não tiver o mínimo de esperança e fé em algo? Acho importantíssimo projetarmos os nossos sonhos em algo – não sendo extremamente exagerado, faz bem.
    Pessoas que passaram pela nossa vida, artistas e religião são bem diferentes, mas, às vezes, acabam tendo valores semelhantes pras pessoas.

  16. 16 almeida 18/02/2013 às 3:19 am

    Naah… não é exatamente isso. É só o sentimento de idealizar uma imagem. As pessoas idealizam um Deus, eu idealizo as minas que eu gosto.

  17. 17 Roger 18/02/2013 às 5:48 am

    Tu não devia ta cursando psicologia? haha

    Muito bom o texto cara.. minha linha de pensamento se aproxima da tua colocada neste texto sobre estes assuntos.

  18. 18 Lari 18/02/2013 às 9:56 pm

    Ótimo texto.

  19. 19 Gabs 19/02/2013 às 12:03 am

    CARALHO MEIDS. Me deixou sem palavras, sensacional.

  20. 20 Maria Clara 19/02/2013 às 12:07 am

    Muito bom seu texto, Almeida! Leio seu blog há anos e me surgiu uma dúvida: você não era ateu? Agora se disse agnóstico. O que houve? haha

  21. 21 Luísa 19/02/2013 às 12:08 am

    Nossa, Almeida ❤
    Mt mt mt bom o texto, você abordou um tema interessante e o colocou de forma super acessível a todo mundo, parabéns!

  22. 22 almeida 19/02/2013 às 12:16 am

    Eu descobri que o termo certo é agnóstico. 😛

  23. 23 Dasty-Sama 28/02/2013 às 3:21 am

    Caraca, você simplesmente conseguiu colocar meu ponto de vista sobre religião. Também sou agnóstica. E meu “Deus” sou eu mesma. Parece um bocado narcisista, mas acho que muito do rumo que vou tomar na minha vida está nas minhas mãos e não em algo superior. Posso dizer o quanto amo Schopenhauer? Sério, esse cara parece escrever muita coisa que faz sentido. Pelo menos para mim.

  24. 24 Leticia 31/03/2013 às 3:28 am

    Só pra deixar aqui que eu adorei o texto, parabéns. Só acho que vc deveria escrever mais sobre isso, admiro muito suas reflexões (:

  25. 25 George 25/04/2013 às 1:21 am

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