O escritor descolado e modinha de 2013: Bukowski.

Imagino que os senhores já estejam cientes de que o brasileiro é um bicho realmente estúpido e pragmático. Digo pragmático pois, ainda que ele tente não ser (e ache fielmente que não é), todas as atitudes dele são tão óbvias e estúpidas que acabam formando um ciclo de estupidez infindável. E o pior de tudo é que eles são ainda mais repetitivos justamente quando tentam ser diferentes.

Gosto de chamar esse grupinho descolado que tenta ser inovador – mas invariavelmente acabam caindo no abismo de repetição – de hipsters. Antes eu os chamava de pseudohipsters, mas eis que se tornaram uma maioria tão esmagadora, que usurparam o codinome de hipsters, e os antigos hipsters tru é que hoje em dia são os pseudohipsters. Rola uma inversão de valores absurda derivada dessa rapaziada estúpida.

Os hipsters, os senhores já sabem, tem algumas características básicas que me privarei de dissertar sobre– aquela coisa do café, imagens preto e branco e citação de livros que não leram.

É sobre esse último quesito que esse texto aqui pretende abordar.

Não foi incomum nos anos de 2011 e 2012 nossas retinas estupradas por diversos textículos da Clarice Lispector e do Caio Fernando Abreu, o que eu achava ótimo, afinal, são (ou eram) grandes escritores. O problema em si é que a rapaziada que postava e disseminava essa porra nunca se deu ao trabalho de ler um livro sequer dos caras. A garotada colocava o nome dos caras no google, ia em O Pensador e metia no facebook o primeiro trecho que fosse “bacana o suficiente” e “pequenininho”, afinal, ler muito ia cansar seus cérebros virgens de informações úteis.

– vcs sabiam que eu morri com aids e tenho livros apenas dissertando cenas de sexo gay? 50 tons de cinza é coisa de toddynho

O ciclo todo de babaquice os senhores já conhecem, então não me aprofundarei em demasia. Só queria sugerir uma coisa – por que é que vocês, hipsters descolados, não juntam as duas últimas modinhas alternativas: as frasezinhas e a tatuagem no cu?

É realmente adorável tatuar “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome” nas costas ou na perna, mas interessante mesmo seria tatuar isso em volta de seu brioco.

Melhor ainda – tatue em outra língua e, quando o homem que chegar aonde poucos estiveram lhe perguntar o que significa, você pode dar algum significado totalmente absurdo e incongruente, como a maioria das pessoas já fazem mesmo.

– O que é isso que está escrito ao redor de seu furico? Je suis un idiot complet?

– Que eu possa também abrir espaço pra cultivar a todo instante as sementes do bem e da felicidade de quem não importa quem seja ou do mal que tenha feito para mim. Que a vida me ensine a amar cada vez mais, de um jeito mais leve. Que o respeito comigo mesma seja sempre obedecido com a paz de quem está se encontrando e se conhecendo com um coração maior. Um encontro com a vontade de paz e o desejo de viver…

– Ah, ta.

Será lindo.

Mas eu estou divagando aqui, caralho. Parem de me distrair.

O que eu quero realmente dizer é: em 2013, CFA e Clarice serão substituídas por um outro escritor “totalmente novo e descolado”, que eu tenho absoluta certeza será Charles Bukowski.

“O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.”

Bukowski preenche todos os quesitos necessários para ser adorado pro essa rapaziadinha descerebrada – ele odeia todo mundo e ele escreve o óbvio, mas que ninguém nunca parou pra escrever.

Com uma frequente carga de ódio, xingamentos e palavrões, Bukowski escreveu alguns romances, contos e poesias. Vez ou outra você achará um exceto dele sobre amor e relacionamentos, e aposto que serão esses o que mais farão sucesso nas redes sociais, ainda que raros.

Outra coisa que compactua para que seja o próximo ídolo hipster – ele já morreu. E todos nós sabemos que pra ser considerado qualquer coisa além de pouca bosta nesse mundo, você precisa estar morto.

Este texto é um aviso. Acredito que, quando avisados previamente, as dores machucam menos. E também é um conselho – leiam e apreciem a obra do cara antes que ela seja estragada pela rapaziada tonta. Suponho que os senhores tenham alguns 4 ou 5 meses antes do primeiro perfil Frases Bukowski ser criado no facebook. O utilizem para lerem a obra do cara.

Aconselho começarem por “Misto-Quente”, ainda que seja vergonhoso ir a uma Saraiva e perguntar “então, moça atendente, cês tem algum livro aí chamado Misto Quente?”.

Eu mesmo passei por isso. E a atendente era gatinha. DAMN.

****

Ó CÉUS, ELES JÁ COMEÇARAM

[lomadeewpro category=’3482′ keywords=’Bukowski, livro, Misto-Quente, Pulp Fiction’]

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25 Responses to “O escritor descolado e modinha de 2013: Bukowski.”


  1. 1 Ana Beatriz 06/01/2013 às 12:16 am

    Sem falar as frases nunca ditas de Clarisse como: ‘saber a dor de chorar em frente ao computador’… depois dessa, meu caro, nada mais me surpreende, rss.

  2. 2 Ana Beatriz 06/01/2013 às 12:17 am

    *Clarice

  3. 3 Bruna Almeida 06/01/2013 às 12:21 am

    quero ver se eles vão querer citar trechos do “o amor é um cão dos diabos”, mais conhecido como livro de poesia sobre putaria e algumas experiencias de sexo selvagem do autor, a final, não será nada poético escrever no feicebuque sobre uma transa com uma mulher mais velha, ou a “musica que meu pênis faz em você” entre outros. (vergonhoso uma moçoila admitir que leu um negocio desses, mas é)

  4. 4 Mônica 06/01/2013 às 12:31 am

    O pior é que você está certo e isso já tá acontecendo, já faz um tempo que a minha dash no tumblr tá cheia de supostas citações dele. Mas fazer o que né, é a vida

  5. 6 Bruna Almeida 06/01/2013 às 12:45 am

    repito, se colocarem trechos do “o amor é um cão dos diabos” ai sim será tarde de mais

  6. 7 Clara 06/01/2013 às 1:09 am

    Bukowski é o autor muito bom, de fato, e talvez, se popularizado, não seja de todo ruim, já que leva um pouco de cultura à cabeça daqueles que não a possuem. Porém, toda modinha acaba deixando grandes autores banais e até chatos. Acredito que quem lê e entende realmente Bukowski não vai se importar se o autor é ou não modinha.

  7. 8 Raquel 06/01/2013 às 2:55 am

    Poxa eu curto muito bukowski, seria legal ele ganhar um pouco de reconhecimento sim, mas não estamos falando de reconhecimento e sim de ser profanado por crianças remelentas, ja consigo ver todos se sentindo um blue bird, ou falando em madhouse, espero que isso não ocorra

  8. 9 Fer 06/01/2013 às 4:24 am

    Parabéns pelo texto cara, ótimo como sempre!
    Eu sinceramente não conhecia esse cara aí do nome estranho e não me surpreenderei se daqui 5 meses estarei sabendo escreve-lo de tanto ver no facebook! rs
    Decidi que não me surpreendo mais com moda, não adianta nada e só me estressa, hahahah Abandonei a causa 😛
    Parabéns de novo, rs

  9. 10 Ana Vilar 06/01/2013 às 1:26 pm

    Gente citando Caio Fernando sendo que nunca se deu o trabalho de ler UMA só crônica do moço. Nunca li Bukowski, mas acho que ele merece reconhecimento, só que não desse jeito. Ótimo texto 🙂

  10. 11 Gabriela 06/01/2013 às 10:00 pm

    Quando eu via trechos melados do Caio Fernando de Abreu no facebook ficava pensando como seria se realmente lessem um livro dele, ou pelo menos algum conto pornô gay explícito. Talvez vissem que ele não é um escritor “fofinho” para adolescentes com coração partido. AGORA, tirar frases de amor inocente de livros do Bukowski já é uma piada pronta.

  11. 12 h 06/01/2013 às 11:23 pm

    Eu olho Bukowski e leio Bartowski

  12. 13 Carol 07/01/2013 às 1:11 am

    É, eu tenho um mínimo de contato com o tipo de pessoas que você descreveu no começo do texto pra pensar que esse ciclo de modinha não parece que vai acabar. Nem forçando um pouco de consciência
    como um texto desses em suas caras poderia lhes tirar a razão, ou sei lá. Aprendi to not give a crap about it, de modo que frequentemente fecho os olhos pra essas coisas.

    Bonito o texto, apesar de te admirar mais pelo twitter do que pelos seus textos, que pra falar a verdade acho um pouco presunçosos. Talvez é a maneira de se apresentar aos novos visitantes, do que eu sei? :~

  13. 14 Juliana. 09/01/2013 às 4:43 am

    O problema é que as pessoas que publicarão tais citações, em sua maioria, não lerão de fato os livros. No entanto, não lhes será muito útil a popularização do autor, nenhuma cultura será adquirida. Seria uma maravilha, porém, que os rapazes/raparigas tomassem vergonha na cara e buscassem ler a obra do cara, pra pelo menos saber se o autor realmente disse aquilo ou não.

  14. 15 Juliana. 09/01/2013 às 4:48 am

    Almeida, você é um gato, by the way.

  15. 17 Aline 15/01/2013 às 3:37 am

    Almeidinha, vc leu algum livro do Bukowski além de “Misto Quente”? Bjs ❤

  16. 18 almeida 15/01/2013 às 11:35 am

    Nop, mas vou ler Factótum em seguida :3

  17. 19 Gabi 08/02/2013 às 11:27 pm

    Tô chocada Almeida! Mal se passou um mês da sua previsão, e ela se concretizou! Bukowski tá em tudo quanto é canto, tumblr, facebook… ahahah

  18. 21 Victor 15/04/2013 às 9:16 pm

    Agora querem discutir o gosto dos outros. kkkk Você que escreveu essa matéria… você sim é um completo babaca ! Viadagem do caralho !!

  19. 22 ELTON 16/11/2013 às 9:05 pm

    Maldito “CTRL C + CTRL V”

  20. 23 Alana Farias 24/07/2016 às 3:34 am

    Muhuahua! Adoro Bukowski, cheguei aqui agora porque vi uma citação dele no Facebook e pensei que fosse uma modinha mais atual. Convenhamos que o pessoal bem engomadinho deveria ter vergonha de falar que já passou por certos trechos tão sujos de Bukowski, aquilo é ótimo, mas polui a mente moralizada de qualquer um (rs).


  1. 1 Bukowski é a nova modinha das redes sociais | PapodeHomem Trackback em 05/06/2013 às 1:00 pm
  2. 2 John Galliano quebra o silêncio e concede a primeira entrevista depois de sua queda | SCOMBROS Trackback em 05/06/2013 às 3:33 pm

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