O fã.

Eu sempre fui adepto das avaliações. Acho que, quando bem formulados, os testes e avaliações são os melhores niveladores que a sociedade pode ter e, em consequência disso, são sua ferramenta mais importante. Por exemplo – imagine um mundo em que, para ter acesso ao livre arbítrio, o ser humano tivesse de ser avaliado em diversas áreas, como cultura, conhecimentos gerais e pensamento. Uma vez que reprovasse, estaria provado que aquela criatura não merece o livre arbítrio, afinal, daquela boca só sairá bosta. Viveríamos em um mundo sem funk, Michel Teló, fãs do Justin Bieber e eleitores do PT, por exemplo.

Uma das situações em que eu acredito que avaliações meticulosas seriam úteis é a de ser fã. Veja bem, o pseudônimo “fã” anda mais deturpado que o de beleza – e olha que o Ronaldinho Gaúcho e o Neymar foram considerados os gatos do Brasileirão.

Desde o fenômeno beetlomaníaco que o conceito de fã se resumiu a uma infinidade de minas com as coxas molhadas gritando os agudos mais altos que conseguissem. Os fãs tornaram-se sinônimo de “groupie menor de idade”, o que, por si só, é um conceito excludente a todos os homens que se consideram fãs de alguma coisa.

o nome disso é PUTARIA, PU-TA-RI-A, e essas minas merecem é uns bons TABEFES, não coraçõezinhos do Pe Lanza.

O que ocorre, no entanto, é que a maioria dessas pessoas não passaria se fossem sujeitadas uma “avaliação de fã”. Não me refiro aqui àquela eterna discussão entre “poser” e “true fã” com que uma porrada de gente perde tempo. É uma coisa que vai além, um conceito tão profundo que até mesmo muitos que se consideram “fã de verdade” tem errado.

O fã não é aquele cara que deixa a sintonia com a banda diminuir quando eles não lançam nada. Não é aquele cara que pira quando rola briguinha entre os membros, ou sobe hashtags no twitter xingando os haters da banda. O fã também não é aquele cara que faz um twitter pra ficar entupindo a home do artista de pedidos estúpidos e elogios vazios. Muito menos se resume a baixar o disco e postar trechos das letras no facebook, ou saber peculiaridades dos integrantes.

Esse tipo de cara não é fã. Ele é apenas mais um componente de uma massa estúpida que segue tudo aquilo que está em emergência. Uma vez que a banda deixar de ser o centro das atenções da mídia, também deixará de ser o dele, e perderá o posto para o próximo artista que as grandes empresas fonográficas empurrarem.

O ato de ser fã também não se resume a pagar a pista VIP em um show e ficar lá na grade. O cara que ta lá na frente pode não ser tão fã quanto aquele maluco que ta lá no fundo, por que lá ele pode aproveitar melhor o espaço e a sonoridades que ecoa ao vento nas casas de show. O fã de verdade é aquele cara que fecha os olhos na maioria das músicas, falta o ar pra cantar junto com a banda e faltam as palavras pra expressar o que ele ta sentindo ali, independente do lugar em que ele ta no salão.

Ser fã não é saber de cor peculiaridades de todos os integrantes. Aliás, é possível ser fã sem nem ao menos saber o nome de todos os integrantes de uma banda – afinal, o conceito de fã deve ser associado ao trabalho, não ao artista.

É justamente a associação do “fã” ao artista que gera celebridades inebriantes sem nada a adicionar ao mundo. Pergunte para uma neymarzete de 12 anos se ela gosta do Neymar pela aparência dele ou pelo futebol e entenderá o que digo.

Deve-se ser fã do som de uma banda, não do vocalista. Deve-se ser fã de um livro, não do escritor.

A ideologia fica evidente quando a gente muda pro âmbito do esporte – o torcedor é um fã. O torcedor é o cara que tem uma relação tão íntima com o time, que lhe faltam palavras pra descrevê-la. E da mesma forma que existem aqueles caras que são verdadeiramente fãs e fiéis, existem aqueles estúpidos que arrumam briga com outros torcedores e fazem merda sob a alcunha de torcedor.

Esse torcedor babaca é a mesma fã babaca que sobe uma hashtag no twitter xingando a Titi por ter zoado o Justin Bieber. Só que com menos testosterona e sangue, lógico.

O ato de ser fã é uma atitude movida a sentimento, não à razão. A partir do momento que uma obra te toca, torna-se fã dela. Não por ela estar na mídia, não por que te disseram que era boa, não por que a imagem dela “é legal”, mas por ela instigar um sentimento diferente de tudo o que já sentira outrora.

Uma vez que ela deixar de instigá-lo, deixar-se-á de ser fã. O que é plenamente plausível, aliás. Não é uma certidão de casamento – é apenas ser fã.

Mas vai explicar isso pra uma mina de 12 anos. Por isso que eu digo – vamos cercear essa história aí de livre arbítrio que essa garotada não tem a menor ideia do que ta falando.

***

TREZE anos de Fresno. Falta mundo pra tanta grandeza.

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20 Responses to “O fã.”


  1. 1 Mariana Cunha 04/12/2012 às 5:53 am

    bah!! acredito que nem nas minhas melhores tentativas eu conseguiria explicar o que é um fã, o jeito que você escreveu deixou tudo mais simples de entender/lembrar um valor que tá meio bagunçado 🙂 da-lhe almeida!!!

  2. 2 Gabi Casares 04/12/2012 às 7:35 am

    Cara, muito bom, parabéns!
    Você conseguiu escrever exatamente o que eu tenho tentado passar pras pessoas retardadas que dizem que eu sou “poser” do Queen porque eu não sei, sei lá, a cor da cueca do Freddie, ou de Harry Potter, porque eu não fico o dia inteiro na internet atrás de boatos falsos de novos livros e coisa assim. Ou que eu não sou vascaína de verdade, porque eu prefiro entrar na brincadeira do que brigar e discutir por coisas que não vão mudar.

  3. 3 @Maari_xx 04/12/2012 às 11:29 am

    “O ato de ser fã é uma atitude movida a sentimento, não à razão” Você já diz tudo só nessa pequena parte :’)
    Parabéns pelo texto, Meids!

  4. 4 Gabriela 04/12/2012 às 12:54 pm

    Parabéns pelo texto Almeida, do caralho.
    O mais engraçado disso é que quanto maior a “fama” proveniente de menininhas de 12 anos, menor é o tempo que a banda sobrevive. O que aconteceu com o happy rock, por exemplo?
    Só as bandas de verdade continuam, que foi o que aconteceu com a Fresno.

  5. 5 Gabi 04/12/2012 às 1:01 pm

    nunca concordei tanto com um texto seu!!!!!!

  6. 6 Carmina 04/12/2012 às 2:52 pm

    “o conceito de fã deve ser associado ao trabalho, não ao artista.” porra, sempre disse isso e todo mundo me achava babaca. o artista faz a arte pra que a gente admire a PORRA DA ARTE. e não ele. talvez por conhecer a arte a gente se interesse de conhecer a pessoa e acaba percebendo que ela é fucking boa em tudo, em outras artes, tem um discurso político maravilhoso e um conhecimento GIGANTESCO. eu sou muito fã do Vítor Insensee e não sei que número ele calça ou o que faz toda sexta ao meio dia, mas sei que ele é foda e que eu admiro muito o trabalho dele.

  7. 7 M Laís 04/12/2012 às 2:56 pm

    Ta muito bom, brou, e concordo com você. Somos fãs e não o wikipédia. Ta faltando pra essa galera escutar mais o som ao invés de reparar na cor da camisa do vocalista. Ta faltando sentir mais e parar de rotular. Parabéns pelo texto e parabéns pra Fresno, grande Fresno!

  8. 8 Paola 04/12/2012 às 3:54 pm

    “O fã de verdade é aquele cara que fecha os olhos na maioria das músicas, falta o ar pra cantar junto com a banda e faltam as palavras pra expressar o que ele ta sentindo ali, independente do lugar em que ele ta no salão.”
    Só isso já basta ❤

  9. 9 Laura 04/12/2012 às 10:30 pm

    HAHA Leio seu blog a alguns anos, e esse é o primeiro post que eu concordo com você totalmente… Com esse tipo de “fã” que mais se acha fã do que é também tem o problema gigantesco de ser tachado, por que se você gosta daquilo sempre vão te comparar com esse tipo de fã, sendo que as vezes você é totalmente o oposto.
    E tem mais uma coisa que PARA MIM é uma coisa essencial pra mim ser fã não significa que eu tenho que gostar de 100% que os caras fazem, mesmo sendo fã eu tenho todo o direito de criticar com razão, não é por que eu achei uma musica ruim, que eu não gostei de algo, que eu não sou fã da banda, simples.
    Sempre gostei de coisas que não são conhecidas por tanta gente assim, então normalmente consigo me livrar do rotulamento que certas pessoas sofrem, mas o segundo caso é o que mais me irrita, por exemplo, Crashdiet, minha banda preferida, eu no (pequeno) grupo de pessoas que curtem eles dei a minha opinião sobre uma musica, que eu realmente não tinha gostado, metade dessas pessoas simplesmente me tacou pedras dizendo que eu não era fã deles, pois é.
    E tem mais uma coisa que me irrita também, que se você não conhece a banda a x tempo você nâo pode ser fã, se fosse assim só por tempo, todos nós seriamos os maiores fãs da xuxa… Gostar de coisas atuais que estão na mídia está cada vez mais dificil por causa desses fãs, as vezes muitas pessoas deixam de escutar a musica só por causa do tipo de fã que curte, e acaba perdendo o que pode ser uma boa banda… malditos rotúlos e malditos “fãs” irritantes

  10. 10 isabela 04/12/2012 às 11:49 pm

    falou TUDO!

  11. 11 Kauane linda e meiga Mello 04/12/2012 às 11:52 pm

    Contribuindo para os dez mil coments só porque sou linda e meiga, agora vou ler o post :* auhauhaua

  12. 12 Grasie 05/12/2012 às 2:48 am

    Esse post conseguiu exprimir tudo aquilo que tenho vontade de dizer tantas vezes quando julgam o que ouço, mais uma vez parabéns Almeida.

  13. 13 Raquel 05/12/2012 às 4:04 am

    Nuh, como é verdade isso que vc falou, sou fã de algumas bandas das quais não conheço o nome de nenhum artista muito menos sei reconhecer o nome de alguma música, Pq quando coloco o cd pra tocar eu viajo tão escrotamente que coisas como o nome do vocalista nem sonha em se passar pela minha mente.. Eu posso ser chamada de poder um milhão de vezes, mas eu sei que sou fã.. E é isso que importa..
    Para os desocupados vão ouvir ‘tokyo policie club’ o ultimo cd champ é insano

  14. 14 Fer 05/12/2012 às 8:31 pm

    Exatamente isso. Às vezes me pego na situação ridícula de não querer falar sobre uma música, banda ou cantor perto de alguém que se diz fã do mesmo, porque provavelmente se eu não souber todos os nomes, cores e comidas preferidas do artista, a pessoa vai me torturar até a morte. E isso é terrível, mesmo!
    Mas agora, quando alguém vier falar abobrinha pra mim vou encaminha-lo diretamente pra cá, quem sabe assim ganha um pouco de bom senso!
    Parabéns pelo texto 😉

  15. 15 Karina Matias 05/12/2012 às 10:02 pm

    Ótimo texto… muitas pessoas deviam ler isso

  16. 16 Letícia 06/12/2012 às 2:15 am

    Esse texto ficou FODA, muito bom mesmo! Tem muita gente precisando lê-lo, pra atualizar seus conceitos de “fã”…

  17. 17 Manoela 09/12/2012 às 1:54 pm

    Tu traduziu em palavras todos os meus argumentos e inúmeras discussões que já tive sobre o assunto. Muito bala!

    Um dos textos mais legais, e mais verdadeiros. Gostei demais desse.

    É desse jeito que sou fã da Fresno. ?

  18. 18 A. 15/12/2012 às 12:33 am

    “O conceito de fã deve ser associado ao trabalho, não ao artista.”
    Isso devia ser bem exposto e divulgado para os fãs do McFLY.

  19. 19 VicksOhira 19/12/2012 às 4:55 am

    simplesmente o melhor texto que eu já li nessa casinha calculista, parabéns almeida

  20. 20 carol 16/02/2013 às 9:20 pm

    se existe algo irritante é aquele tipo de pessoa q te chama de poser por não saber algo como o nome dos pais de cada integrante da banda ¬¬


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Música: Canção da Noite
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Livro: Sherlock Holmes
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How I Met Your Mother

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Um rolê em Madureira: 918 e 919 nunca tiveram uma diferença tão grande na minha vida. Essa diferença somado com a insano desejo do destino de me foder, causou uma peripécia de tremer as cuecas.

Ensino Médio deturpando sonhos:

Apesar do Ensino Médio ser repleto de conhecimentos babacas os quais nunca terão a menor utilidade em nossas vidas, ele pode desmentir algumas informações as quais fizeram você acreditar ser verdade por toda sua vida.

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