Pe Lanza > Roberto Carlos

Eu tenho uma teoria a qual gostaria de dividir com os senhores. Não, não tentarei provar a ninguém que o Restart é o rei da música nacional. Longe disso, aliás. Mas me deixem começar pelo começo.

Esses dias eu fui num musical no teatro Oi Casagrande – que é o lugar mais legal do mundo, aliás – em que o protagonista diversas vezes dizia “1980: o ano em que a inspiração acabou”. Diante disso, ele se alongava, dizendo que a partir de então nenhuma música seria bem feita, nenhum livro seria bem escrito, nenhum filme bem filmado. Tudo isso em decorrência do fato de toda a inspiração dos seres humanos virem das “Musas do Olimpo”, que são as filhas de Zeus, e uma dessas Musas – a principal – ter se apaixonado por um humano e sido expulsa do Olimpo.

O título Musa, aliás, ficou muito bem ilustrado com a Danielle Winits.

Pai do céu ‘-‘

O discurso de que a inspiração acabou nos anos 80 é o argumento praxe pra quem gosta de falar mal da música atual. Existem mais pessoas falando mal da música atual do que pessoas que de fato gostam da música atual. É uma raça seletiva de acéfalos que realmente acreditam que nada que foi feito depois da década de 80/90 merece atenção. Se dependesse dessas pessoas, a indústria fonográfica se alimentaria de coletâneas Millenium de músicas que ninguém mais aguenta ouvir – nem eles mesmos.

E o problema não é só com as bandas em si. Simplesmente qualquer coisa lançada em tempos modernos é um lixo. Pense bem – Guns n’ Roses é a primeira coisa que os pseudo-roqueiros pensam quando querem dar um exemplo de “banda de róquis”, mas o Chinese Democracy foi considerado uma grandissíssima merda.

E é disso que se trata a minha teoria, amigos.

Se vocês forem ler o livro “1968 – O Ano Que Não Terminou”, de Zuenir Ventura, em que ele retrata o quadro social dos jovens na década de 60, perceberão que isso é um ciclo histórico que se repete desde sempre. No livro, o autor aborda minuciosamente a visão da mídia e dos jovens sobre artistas como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré e Roberto Carlos, os quais, na época, eram “bandinhas adolescentes e novas”, criticadas por todos, exceto os considerados “moderninhos”.

Vocês já perceberam que a única música do Geraldo Vandré que fez sucesso é Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores? O Geraldo Vandré é praticamente a Banda Cine dos anos 60! UO OH OH, VEM VAMOS EMBORA, UO OH OH OH OH, ESPERAR NÃO É SABER

E o Roberto Carlos? Esse aí é diretamente proporcional à Restart.

Em meio à ditadura, repressão, movimento estudantil e o escambal, o Roberto Carlos cantava músiquinhas melosas sobre um calhambeque. A mídia caía de pau nele, e os adolescentes “inteligentes” diziam que aquela música não prestava, era popzinho idiota e que cairia no esquecimento pouco tempo depois. Quem alimentava a fama dele eram as meninas virgens de 14 anos e os moleques de 17 que acabavam de ganhar pêlos púbicos e o ouviam pra poder recitar as letras pras meninas de 14 anos no intuito de dar uns amassos. Mais ou menos o que os lelesks fazem hoje em dia recitando “Esse amor em mim” pras meninas no MSN.

A prova de que o ciclo se repete é que, quando esses adolescentes de 14 e 17 anos cresceram, foram eles que crucificavam as bandas novas – Cazuza, Titãs, Legião Urbana, Raul Seixas, Paralamas do Sucesso.

Ou vocês acham que desde sempre que essas bandas são imortais?

Véi… na boa.

O Cazuza e o Renato Russo eram considerados uns viados disseminadores de maus conceitos. Quando a notícia de que haviam pegado aids se espalhou, ninguém ficou lá muito surpreso. Em fato, aquilo apenas comprovava “o que todos já sabiam”. O Raulzito então, ora bolas, um cara visivelmente e declaradamente louco, drogado e contestador. Todo mundo caía de pau no coitado.

Mas vocês sabem como é – quando um artista morre, ele vira gênio.

Michael Jackson antes de morrer? Estuprador de criancinhas.
Michael Jackson depois de morrer? Rei.
Amy Winehouse antes de morrer? Drogada fodida.
Amy Winehouse depois de morrer? Salvação do blues mundial.
Whitney Houston antes de morrer? Quem?
Whitney Houston depois de morrer? A MELHOR VOZ DO MUNDO!

Indo ainda MAIS LONGE, eu vos apresento essa música aqui:

Esse cara diz que 3 de fevereiro de 1959 foi o dia em que a música morreu. E fez uma música de 8 minutos pra explicar o por quê.

Pra poupar o trabalho de vocês, eu resumo – 3 de fevereiro de 1959 foi o dia que Buddy Holly morreu em um acidente. Cês não devem conhecer – eu também não conhecia – mas Buddy Holly é a pessoa considerada “o criador do rock”.

Mas esses não eram os Beatles?

Exatamente. Os Beatles são inspirados nesse cara. Em fato, eles apenas pegaram as ideias desse cara e deram continuidade, lógico, com o toque de genialidade imprescindível dos quatro. Os Rolling Stones também se inspiraram nesse cara.

Percebam – em poucos parágrafos eu já descrevi três momentos em que todo mundo acreditava que a inspiração havia morrido. De duas, uma: ou essa porra morre mais do que o Goku, ou as pessoas que dizem “mimimi, a inspiração acabou” são completos acéfalos.

Eu tenho tendência em acreditar que a segunda opção é a certa.

Brous, longe de mim dizer que o Pe Lanza, daqui há 40 anos, será considerado o Rei da música brasileira, ou que a Fresno é melhor que os Beatles. Só quero mostrar que as pessoas se acham muito inteligentes e cultas  criticando os artistas da atualidade, mas não passam de uns preconceituosos de merda.

Isso não ocorre só com a música – a literatura é a mesma coisa. Mendel, o pai da genética, morreu pobre. As pessoas só deram importância aos livros dele quase 40 anos depois de sua morte. Caio Fernando Abreu também. Ninguém ligava muito pra ele. Meu professor de redação, gaúcho, disse que conhecia o Caio – eles moravam na mesma rua, ou bairro, ou algo do tipo, na época em que o Caio tava com aids.

Eles se esbarravam na rua praticamente todos os dias e ninguém reconhecia o Caio. Pelo fato de ambos serem ligado às letras, eles ocasionalmente se encontravam em eventos de literatura e ninguém dava atenção ao Caio. 15 anos depois da morte dele, preciso dizer alguma coisa?

12.343 compartilhamentos no Facebook.

E o Paulo Coelho? Ah, esse aí ainda tá vivo, então é só um culto chato pra cacete…

Poderia citar outros milhares de exemplos, mas esse texto já tá muito grande.

Termino minha teoria com uma afirmação irrefutável – se o Pe Lanza morrer AMANHÃ, ele se tornará A SALVAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA, A MAIOR PERDA DA DÉCADA e, de quebra, O REI DO ROCK NACIONAL.

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17 Responses to “Pe Lanza > Roberto Carlos”


  1. 1 Fer 22/03/2012 às 7:50 pm

    Ainda bem que você existe e faz esses textos porque eu penso muito igual, aí eu me expresso com eles, hahh
    Ficou ótimo, como sempre. E cara, é tudo tão assim, o cara morre e vira o rei, fala sério… Ninguém dá valor enquanto tá vivo pra quando morre ficar fazendo homenagem no facebook, irritante! E outra, esses adolescentes criticando a atualidade e idolatrando quem já morreu pra pagar de cult é muito chato. Eu curto umas atualidades e não to nem aí pra ninguém. =))

  2. 2 carol 22/03/2012 às 8:14 pm

    tu disse TUDO, sério esse texto deveria ser divulgado pro Brasil oweiweow

  3. 3 Mary Linda 22/03/2012 às 8:33 pm

    Falou e disse, Meids.

  4. 4 Cacau 22/03/2012 às 8:37 pm

    “se o Pe Lanza morrer AMANHÃ, ele se tornará A SALVAÇÃO DA MÚSICA BRASILEIRA, A MAIOR PERDA DA DÉCADA e, de quebra, O REI DO ROCK NACIONAL.”

    QUE DÚVIDA! uhauhauhau

    O post ficou muito bom, dude. Um dos melhores aqui do NC! Concordo com quase tudo. E eu acho o Paulo Coelho chato pra caralho, e vou continuar achando depois que ele morrer. auhauhua

    Congrats. E para de reclamar que ninguém comenta.

  5. 5 Almeida 22/03/2012 às 8:41 pm

    MAS NINGUÉM COMENTA! =(

    auhauhauhu

  6. 6 Maari_xx 22/03/2012 às 8:41 pm

    Minha mãe sobre o post: “~suspiro~ Ele é muito inteligente”
    Devo concordar com ela, só você pra salvar o mundo dos que pagam de cult.
    Parabéns pelo texto, Meidoca.

  7. 7 Marina T 22/03/2012 às 8:43 pm

    Bom mas não GENIAL , só vai ser genial quando Almeida morrer.

  8. 8 Wyss Torres 22/03/2012 às 8:46 pm

    Só conheço o Buddy Holly por causa da música do Weezer, hoje em dia não se fala tanto dele, mas, ele foi REALMENTE um gênio.

    Lembro de quando até abriram um site pra adivinharem a morte da Amy Winehouse, não ligavam. Ano passado surgiram fãs dela até do inferno, impressionante.

    A Britney Spears, Lindsay Lohan e essa galera que costumam perseguir vão ser a mesma coisa quando morrerem.

  9. 9 Gabriela 23/03/2012 às 5:22 pm

    Te admiro pra caralho meids, e esse texto entrou no meu top top, falou tudo.

  10. 10 Cacau 23/03/2012 às 6:50 pm

    Chico Anysio se tornando o maior ídolo da humanidade, o herói brasileiro, a maior inspiração dos jovens, o melhor humorista de todos os tempos, blablablá whiskas sachê em 5, 4, 3, 2…

  11. 11 Cacau 23/03/2012 às 6:54 pm

    Todos aqui são NINGUÉNS então auhauhaua

  12. 12 Camilla 24/03/2012 às 12:02 am

    Até Rafinha Bastos virará o melhor dos melhores quando morrer. Ou não.

  13. 13 amanda 24/03/2012 às 9:15 pm

    realmente muito bom
    virou moda, por partes de muitos também, falar mal deles ‘-‘

  14. 14 Alice 03/04/2012 às 8:56 pm

    Agente podia fazer o teste, e dar um sumiço no pelanza pra saber se ele ia ser bom.
    Ta certo almeida, ok. Todo mundo sempre vai criticar o que é novo, mas sejamos razoaveis. Tem muita banda boa, sim, e atual. Mas comparar geraldo vandreco à cine, me irmão.. forçou né. Essas bandinhas de menininhos que mal mal sairam da puberdade não tem letra, nem música. A voz é chinfrim, os intrumentos bonzinhos, na medida da normalidade, as letras são dois versos repetidos, poeminhas de menina de quarta série e a música é do tipinho que é feita industrialmente pra grudar na cabeça da garotadinha sem neurônio. E vamos lá almeida, larga desse negócio de fresno, porque é muita choradeira e blabla. mas não vou entrar nesse assunto, porque você vai me bater.

  15. 15 fmattosa 23/04/2012 às 3:40 pm

    Eu acho que hoje em dia tá repleto de bandas merdas, mas que ano passado também, há cinco anos também, há dez, há 50 anos também tava repleto de bandas merdas.
    Cabe a nós, como em todas as gerações, resgatar as bandas boas, ouvir as músicas e parar de fazer sensacionalismo.

    É, e também acho engraçado, como as pessoas endeusam quem morreu, mesmo não sendo famoso “ah, esse estuprador, era um ótimo filho, filha da puta de policial que o matou, não devería, cadê os direitos humanos?” PORRA NÉ!

    E as pessoas tenque parar de falar, o mundo tenque girar.

  16. 16 Leticia Schreiber 04/07/2012 às 12:01 am

    Genial! haha

  17. 17 Sérgio 19/10/2012 às 8:43 am

    Você realmente nao entende de nada! O Vandre inclusive era apaixonado pela aeronáutica. E a única música dele foi essa!


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