O dia em que o céu caiu

Eram 16:00 e não tinha porra nenhuma pra fazer – situação recorrente ultimamente. Abri o facebook e vi meus amigos agitando uma ida às 5 Bocas pra assistirem a um jogo de futebol.

Pelo que eu sabia, as 5 Bocas eram tipo um POINT JOVEM DE GENTE POBRE onde a negada se encontrava, bebia, falava besteira, via jogos, etc. Imaginava um restaurante bem badalado, onde as pessoas ficavam ao redor dele e tal. Aceitei ir no bagulho.

Saí de casa 16:30 e cheguei no local 18:00. Eis a decepção: não tinha restaurante nenhum. O nome 5 Bocas é proveniente do fato daquele ser o encontro de 5 ruas que desembocam ali completamente aleatórias. Não me perguntem quem foi o urbanista que projetou essa porra, só sei que é o que é.

Este sou eu, nas 5 Bocas, coçando o cérebro.

Ao invés de restaurantes, o lugar é entupido por botecos de esquina (afinal, são 5 esquinas) e barraquinhas de podrão, com gente de classe média/baixa bebendo Itaipava e ouvindo pagode.

O lugar em si não é lamentável. Lamentável era eu ter ficado uma hora e meia num ônibus, domingo à tarde, pra ir até lá.

Enfim, encontrei meus amigos e começamos a assistir o jogo. O jogo tava meio morto, mas o pessoal já começou a pedir umas cervejas, comprar uns pastéis de esquina e, aos poucos, o lugar foi ficando mais aconchegante.

Até que acabou o primeiro tempo.

O timing foi perfeito – o juiz apitou o fim do primeiro tempo e o CÉU COMEÇOU A DESABAR.

Livro sobre o dia.

Começou com uma chuva grossa mas rala e, de repente, começou o próprio DILÚVIO. E não pensem que eu estou exagerando – o local inundou em questão de 20 minutos, afinal, a água escorria de 5 direções diferentes e desbocava ali.

A água começou a invadir a calçada, as barraquinhas começaram a fechar e o pior de tudo – a televisão perdeu o sinal e não dava mais pra ver o jogo.

Eu já sabia que meu cu estava em risco simplesmente por estar num dos locais mais fodidos do Rio de Janeiro de noite (as 5 Bocas ficam em Olaria, zona norte RALÉ do Rio de Janeiro), mas o fato de o céu estar caindo fez com que eu tivesse certeza quanto à perda de meu  sagrado cu.

Os carros passavam e verdadeiros tsunamis invadiam o bar em que estávamos. Ouvíamos o jogo pelo rádio e até o jogo estava uma merda. Tava tudo uma merda. Era merda demais pra um único dia. E eu não me refiro das merdas que saíam dos bueiros os quais transbordavam com a chuva. Era outra merda.

Esperávamos ansiosamente por uma trégua da chuva, para que, então, pudéssemos ir correndo até o ponto de ônibus e voltarmos pra casa são e salvos. Eu era o único que pegaria um ônibus, mas o ponto ficava no caminho da casa de mais 4 amigos.

Vez ou outra a chuva enfraquecia e nossos olhos brilhavam de esperança, mas logo em seguida a chuva ficava AINDA MAIS FORTE DO QUE TAVA ANTES. O lugar fica perto de um dos maiores hospitais da região, e o número de ambulâncias saindo dali começou a aumentar.

E nada da porra da chuva parar.

Assim que acabou o jogo, fizemos um pacto de irmos pra casa com chuva e o caralho. E eis que peço para vocês imaginarem a cena: em pleno dilúvio, com as ruas desertas e inundadas, cinco moleques do alto de seus 17 anos correndo desesperadamente para casa enquanto gritam xingamentos uns aos outros simplesmente por que era legal fazê-lo.

Você pode estar esboçando um sorriso abobado no canto da boca, mas saiba que eu estava vendo minha vida passar pelos meus olhos, uma vez que meus amigos corriam extremamente rápido e constantemente eu os perdia de alcance. Se eu os perdesse, a vaca ia pro brejo – eu não sabia o caminho de volta e, andando sozinho, de noite, em Olaria, nem precisava saber. Morreria antes de chegar.

Além de que a água me impedia de usar o óculos e minha miopia me impedia de enxergar qualquer coisa.

O bairro de Olaria é cortado por uma linha de trem. Para passar de um lado para o outro, existem três caminhos: o “buraco”, que é o nome dado carinhosamente à GRUTA na qual existe uma passagem subterrânea, a “passarela” que é onde assassinos e bandidos ficam na expectativa de assaltar alguém e jogar a pessoa na pista do trem, e o viaduto, que é onde mendigos e craqueiros passam o dia trocando carícias e pedras.

O caminho menos escrotamente perigoso era o buraco, mas este virara uma grande piscina de leptospirose com o dilúvio. Pensamos, então, na passarela, mas esta se tornara um risco em potencial em decorrência dos fios que poderiam nos dar choques ou das pessoas suspeitamente escondidas atrás do corrimão.

Tivemos de optar então pelo viaduto, junto aos craqueiros e mendigos de Olaria.

Começamos a correr em direção ao viaduto. Já não tínhamos fôlego pra gritarmos um com o outro, estávamos cansados e a brincadeira já se tornara uma aventura realmente perigosa. Havíamos corrido uns 5 quilômetros (vide que não tenho a menor idéia de quanto realmente corremos, mas digo 5km na esperança de chocar os leitores), a chuva destruía meus óculos, a fadiga já tomara a perna de todos e já havíamos passado por umas 3 viaturas de polícia.

Agora não só eu, mas todos estavam com medo de ter os cus transgredidos.

Começamos a subir o viaduto. No chão, bueiros quebrados jogavam merda pra tudo quanto é lado. Verdadeiras crateras se abriam e eu já visualizava a imagem de alguém tomando um tombasso e rolando aquela porra toda a baixo

Homem caído é homem morto. Não haveria como esperá-lo.

Chegando no topo do viaduto, um motoqueiro passou pela gente bem devagar e eis que nosso estômago deu um backflip mortal de 360º (essa comparação somente os verdadeiros sk8 sacarão). Parou ao nosso lado e somente o encaramos.

Então o puto gritou AE VASCOOOOOOOOOOOOOO e foi embora.

Metade do grupo gritou “FILHO DA PUTA” e a outra “AE VASCO PORRAAAAAAA”.

Continuamos a desbravar o viaduto de Olaria, agora descendo-o do lado oposto. Essa foi a parte mais perigosa, uma vez que o chão estava completamente fodido e o lugar era absolutamente escuro – me fazendo entender por que mendigos optam por dormir ali e não no meio do asfalto, onde parece muito mais aconchegante.

Com os cus devidamente protegidos e o viaduto descido, começamos a correr em direção ao ponto de ônibus. Fizemos um pacto de “não correr, mas sim andarmos rápido” que foi quebrado assim que um carro da polícia passou e por algum motivo todo mundo saiu correndo.

Chegamos ao ponto de ônibus. Como disse, somente eu ia pegar um ônibus, então a estada dos meus amigos ali era única e exclusivamente para me proteger, já que, sozinho, eu não teria muitas chances de sair vivo.

Só que o ônibus não passava.

E os ânimos começavam a se alterar.

O medo de ser estuprado aumentava também.

Uma vez uma Kombi passou e perguntou aonde queríamos ir. Dissemos que pro Méier. Ela falou “entrai queu te levo”. Nem entrei.

O motorista desligou o carro.

Meu amigo disse “fodeu, vamos morrer”.

Mas na verdade o carro tinha morrido e ele o religou instantes depois, indo embora.

Só então o ônibus passou e todos os cinco tiramos a camisa e começamos a pular feito macacos no cio gritando “AE PORRAAAAAA ESTAMOS VIVO CARALHOOOOOOO”.

Peguei o ônibus e voltei pra casa tranqüilamente, só observando os acidentes causados pela chuva e os troxa se molhando na chuva.

O escroto é que o Vasco ganhou, né?

Assim complica pro Fluzão.

****

Foto que minhamiga tirou de uma das ruas pela qual passamos.

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32 Responses to “O dia em que o céu caiu”


  1. 1 @Maari_xx 14/11/2011 às 8:35 pm

    Cara, meus parabéns por estar vivo D: Mas pelo menos rendeu um post bem legal e risadas pra quem não estava na sua pele haha brimks Meida. Estou feliz por você estar vivo s2

  2. 2 raquel 14/11/2011 às 8:37 pm

    sorte sua não ter morrido.

  3. 4 @leek4 14/11/2011 às 8:46 pm

    noooooooooooooooooooossa :O
    adoro suas aventuras, rs
    ri demais com o post, haha
    parabéns!

  4. 5 Nicole 14/11/2011 às 8:52 pm

    esse foi um dos posts mais engraçados ever! estou feliz por você estar vivo, almeida haha

  5. 6 Elena 14/11/2011 às 8:54 pm

    AE VASCOOOOOOOOO

  6. 7 Lets 14/11/2011 às 9:04 pm

    Pelo menos vai ter história pra contar pros netos UAHUAHAUH

  7. 8 Lisa 14/11/2011 às 9:30 pm

    são 10 esquinas

  8. 9 Hellen 14/11/2011 às 9:30 pm

    survivor: rio de janeiro

  9. 10 Amanda 14/11/2011 às 9:47 pm

    AE Vascooo hsuahsuahusha

    foi um dia divertido

  10. 11 @LittleDecoy_n 14/11/2011 às 11:02 pm

    HAHAHAHAHAHAHAHAAHAHAHHA Caraca, você tem a habilidade de se meter em furadas! pqp! HAHAHAHAHAH
    VAAASCO! :DD

  11. 13 Winola Weiss 14/11/2011 às 11:08 pm

    AÊ, esse é o Almeida que eu conheço 🙂

  12. 14 Thaisa 14/11/2011 às 11:10 pm

    Não sei se é certo rir da desgraça alheia, mas ri demais ISUHAIUSHAISUHASIUHSAIh

  13. 15 Paola 14/11/2011 às 11:32 pm

    hahahaha você escreve muito bem! Adorei!

  14. 16 eddy 15/11/2011 às 10:35 am

    Eu ia falar… são 10 esquinas, mas já falaram… eu ia falar.. AE VASCOOO.. mas já falaram.. então melhor não falar nada.. só me lembro qd eu fui um turista no rio de janeiro andando pelas ruas com o cú na mão!!! não chovia.. mas para um turista andar no rio já é aventura.. nem precisa de dilúvio!

  15. 17 Bruna A. 15/11/2011 às 10:53 am

    é impressionante como você se fode cara . . . UHSAUHSAUHSA

  16. 18 amanda 15/11/2011 às 1:25 pm

    escreve muito bem² *o*

  17. 19 amanda 15/11/2011 às 1:42 pm

    muito bom!!

  18. 20 Clara 15/11/2011 às 5:20 pm

    HSUAHSAU imaginei uma parada tipo 2012 HAHAH -q

  19. 21 fmattosa 16/11/2011 às 1:40 pm

    AÊ VASCOOOOOOOO! < ér, não.

  20. 22 fmattosa 16/11/2011 às 1:41 pm

    Homem caído é homem morto. Não haveria como esperá-lo. < AHAHSHSHHSHSSHSHSAHSH! Ai Almeida, só você, muito escroto.
    Morri com o post.
    E tipo.. OLARIA? SÉRIO ISSO ALMEIDA?
    Eu ia num show do forfun lá, eu desisti, sendo que eu estava mais na seca de ir á um show do forfun que um cracudinho sem cheirar durante 2 semanas. E desisti, quando vi que era em Olaría, tipo, o lugar é do lado do Alemão, e perto de outras várias favelinhas, a porra do lugar é um lixo.
    AHSSHHSHSAHHSHAHSHA. Tu queria ser estuprado, né? Só pode.

  21. 23 carol 16/11/2011 às 8:32 pm

    eu sempre me perguntei se tu tinha algo em comum com seus amigos, pq não parecia. mas agora eu vejo que o medo de ter o cu desbravado uni vocês, que amizade bonita.

  22. 24 Gabi Casares 16/11/2011 às 8:43 pm

    que hospital? o.O

  23. 25 Letícia. 17/11/2011 às 11:40 pm

    Foi nadando né Almeida?

  24. 26 Rodrigo 18/11/2011 às 4:00 pm

    cinco bocas é o point -n

    sexta feira aquilo fica mais cheio que o maracanã em dia de flaxflu

  25. 27 Alonso 18/11/2011 às 8:14 pm

    Você só não ficou pra trás pq sempre que eu dava arrancadas meu chinelo saia do pé e eu tinha que voltar o/ UAHEAHUEAUH mas foi maneiro cara -q

  26. 28 Vinícius 27/11/2011 às 10:39 am

    ‘homem caído é homem morto’
    kkkkkkkkkkkkkkkkk ri muito

  27. 29 carol 29/11/2011 às 12:19 pm

    IH, FUDEU, ALMEIDA NAO MORREU!

    HASUYAHSIUAHSIUAS
    Brinks, Meids HAHAHAH senti falta de posts

  28. 30 Mariane Ferrari 29/11/2011 às 6:37 pm

    ri demais AIOSHOIHAIOSHAOISHIAOSHOSHAO

  29. 31 Julia 30/11/2011 às 7:42 pm

    HAHAHA’ a 5 bocas quando chove é foda msm.

  30. 32 lilii kyte 07/12/2011 às 1:36 pm

    ~ um mês depois le eu comentando~
    HSUSHSUHSUSHUSHSUSHUSHS OMFG meids, imagino o lugar e pela foto, pqp muita sorte tu estar vivo G_G
    adoro esses posts sobre tuas ~aventuras~ HSUSHUSHSUH *U*


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