Inundamos a escola (final)

A música acabou e logo começaram a rolar boatos de que a inspetora ficara putíssima e estava subindo para descobrir que foi o meliante responsável.

Rapidamente, os moleques tentaram secar a janela, sumir com a garrafa e apagar todos os vestígios que poderiam acusá-los de terem cometido o crime. Inutilmente, porém. Nós, do terceiro ano, temos um andar só para a gente. Todas as outras classes ficam espalhadas pelo segundo e primeiro andar, enquanto nós, do terceiro, ficamos sozinhos no terceiro andar. Nem que quiséssemos poderíamos acusar outra turma. Eles até pensaram em dizer que alunos do ensino fundamental haviam subido até o terceiro andar, jogado a água e saído correndo, mas a inspetora não era estúpida o suficiente pra cair nessa marmelada.

Também não poderíamos acusar outros alunos, afinal, a maioria ainda nem estava na sala de aula quando o ocorrido ocorreu, e, os que estavam, foram justamente os culpados pelo ocorrido ter ocorrido.

A música acaba, o professor chega na sala e tudo se acalma. Parece que a raiva da inspetora não passara de um boato e eles estavam livres para fazer a brincadeira mais vezes, até que irritassem alguém de verdade.

Eis que, já no meio da aula, o porteiro da escola entra na nossa sala e chama os nomes: Guilherme, Rafael (Jackson) e Matheus (Colmenero). Todos olharam para o outro Guilherme, o legal, logicamente. Guilhermes não-legais nunca são chamados para ir à diretoria. Mas como eu só me fodo nessa merda, o cara aponta pra mim e fala “não, esse Guilherme aí”.

Ciente da minha inocência e tendo desenvolvido nos últimos 16 anos uma capacidade nata de mentir sem levantar suspeitas, atendi ao chamado junto com os outros dois moleques. Descemos as escadas do colégio lentamente, matutando sobre qual desculpa daríamos pelo acontecimento. Achei desnecessário pensarmos em uma desculpa. Pra mim, o melhor a se fazer era negar a qualquer custo. Não poderiam provar nada contra nós a menos que obtivessem uma confissão ou algum indício de que éramos os culpados. Como todos os indícios haviam sido devidamente destruídos e as inspetoras da minha escola não são Sherlock Holmes, estávamos livres da prisão por hora.

Também não precisávamos nos preocupar com xisnoves – pensei em por ‘caguetas’, mas soa tão idiota quanto xisnove -, já que a maioria das pessoas não havia presenciado o crime, e as que haviam também estavam envolvidas. Nos delatar era a única premissa para que nós delatássemos o resto dos envolvidos e isso não era cômodo para nenhum dos lados.

Ignorando essas minhas sábias conclusões, Jackson e Colmenero chegaram ao consenso de dizer que, ao jogar água pela janela, eles estavam tentando “regar as plantas que ficam no pátio com o resto de água da garrafa, sem o menor intuito de molhar ninguém”. Tentei lhes explicar que, ao dizer isso, eles estavam admitindo que foram eles que jogaram a água pela janela, e isso já era meio caminho andado para a diretora ligar para a 911 e pedir nossa viatura.

Não me escutaram, e continuaram formulando a história.

Chegamos à diretoria e lá estavam a diretora, a inspetora e a coordenadora (ou seja lá qual é a posição daquelas mulheres na hierarquia da escola). As três sentadas, uma ao lado da outra, nos encarando. Nós, em pé, em frente a elas, encarando o chão.

“Olhem o chão do pátio”, disse a diretora. “Vocês sabem me explicar por que está tão molhado?”

Alguns segundos se passaram até que Colmenero começou a contar a mentira. Quase que naturalmente, Jackson a completava e dava detalhes específicos sobre horários, posição do vento e aquisição de ações na bolsa de valores. Eu me mantive calado, afinal de contas, eu nem tinha que estar ali mesmo, ô porra. Apesar da inocência, tentei encubrir o Guilherme Legal. Apesar de imitar meu nome, o cara realmente é legal, então não vi problema em encubri-lo dessa vez.

“Vocês estão me dizendo que vocês jogaram água pela janela para molhar as plantas?”

Acho que nessa hora eles perceberam que eu estava certo e que aquela história era mais furada que a bunda da Susana Vieira.

“Nós damos tudo para vocês, e é assim que vocês retribuem? Jogando água na gente? Vocês não estudam, os professores reclamam de vocês, tiram notas ruins, e ainda jogam água pela janela?” começou a irmã. Nesse momento, ela vira para a coordenadora e diz “ei, tenta abrir aí no computador o boletim deles. Qual teu nome?” ela perguntou, se dirigindo a mim.

Antes que eu pudesse responder, o Jackson a interrompeu e disse “na verdade, irmã*, esse Guilherme nem fez nada. Vocês o confundiram com o outro Guilherme, o legal”.

* a diretora da minha escola é uma freira, e somos induzidos a chamá-la de irmã.

Nisso, todos olham pra mim. Olhei para cada um lentamente, e parecia que estavam na expectativa de eu responder alguma coisa reveladora. “Não, irmã, olha, não precisa envolver o outro Guilherme não. Fui eu que joguei a água.”. Nisso o Colmenero reafirma a história do Jackson “não, irmã, foi o outro Guilherme que jogou a água, esse não fez nada”.

Nem quando eu tento ser bonzinho as coisas saem do jeito que eu planejo.

A irmã se pronuncia “é que as meninas que vieram reclamar disseram claramente GUILHERME DE AUMEIDA. Elas deram o nome e turma dele, junto com o de vocês. Nem mencionaram o outro Guilherme”.

A única coisa que eu consegui pensar foi “QUEM FORAM AS FILHAS DA PUTA?” mas Colmenero e Jackson perguntaram em uníssono “como assim, meninas? Não foi a inspetora que reclamou da gente?”. Esse é o lado ruim de todo mundo naquela escola me conhecer – a maioria das pessoas me odeia e sempre que tem a chance de me foder, o faz.

“Não, umas meninas vieram aqui com a camisa molhada e disseram que foram vocês que molharam elas.”

Nisso a diretora manda chamar o outro Guilherme e em instantes ele chega à diretoria. Ela, então, pede novamente que a coordenadora abra nossos boletins. Esta, por sua vez, responde que os boletins não estavam disponíveis naquele computador e elas tem uma pequena discussão do tipo “como assim? eu mandei você ter o boletim aí” e “eu sei, mas ainda não tive tempo de por”,” como assim não teve tempo?” “não tive…”.

Nesse instante Colmenero interrompe a discussão e diz “mas olha, irmã, sei meu boletim de cabeça e posso afirmar que eu estou indo muito bem, só tou com nota baixa em uma matéria”, e o Jackson, por sua vez “eu também, só estou meio enrolado com português”. A irmã olha pra mim e me sinto induzido a dizer “eu só tou meio mal em matemática e física, irmã”.

Nisso todos olham para o Guilherme Legal.

Veja bem, como vocês devem saber, uma pessoa Legal não pode ser Esperta também. Essas duas características são paradoxas e é simplesmente impossível conviverem em harmonia em um mesmo indivíduo. Mas Guilherme Legal se mostrou grande dominador das artes da mentira e professou “ah, irmã, eu só tou meio mal em algumas matériazinhas, tou melhorando”. Tivemos que conter o riso para manter a mentira, pois quando lembramos da sucessão de zeros que vieram no boletim do Guilherme Legal, tivemos o ímpeto de gargalhar.

Eis que, de repente, a irmã se mostrou muito mais simpática. Parece que o fato de termos notas boas nos tornou BFFs dela e ela começou a se abrir sobre o que realmente acontecia.

“Veja bem, nós sabemos que vocês estavam só fazendo uma brincadeira com a melhor das intenções, mas é que tem algumas meninas frescas que exageram a história só para dramatizar. Nós temos que mostrar serviço, se não elas contam a história distorcida para os pais e nós acabamos sendo processados”

Nessa parte do discurso ela começou a contar vivências com alunos escrotos que tentam foder a escola e tal, e se passaram uns 15 ou 20 minutos de história. Vez ou outra, Colmenero e Jackson ainda comentavam algum ponto da história, e o sermão acabou se tornando uma conversa de buteco. Quando menos esperávamos, a irmã estava nos elogiando, dizendo que somos bons alunos e as meninas é que estavam erradas por serem frescas e exageradas quanto a uma brincadeira tão saudável como jogar água pela janela. Por fim, pediram para deixarmos que somente os funcionários da escola regassem as plantas do pátio, e nos liberaram para voltarmos à sala de aula.

Saldo do dia – perdemos uma aula inútil de espanhol e trollamos umas minas escrotas.

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25 Responses to “Inundamos a escola (final)”


  1. 1 Adriele 16/06/2011 às 4:01 pm

    Hahaha. Muito bom.

  2. 2 @xkiiwi 16/06/2011 às 4:05 pm

    mas como assim você não se fodeu? Não é a regra do almeida se foder sempre que possível? kkk Regar as plantas é realmente uma história muito boa mesmo, duvido que você não ajudou a criá-la 😛
    E.. muito escrotas essas gurias, garanto que estragaram a chapinha delas kkk

  3. 3 Gabriela 16/06/2011 às 6:36 pm

    fiquei imaginando o Almeida tendo uma ‘conversa de buteco’ com uma freira.. hahahaha.
    muito bom!

  4. 4 Alizoneto Rocha 16/06/2011 às 8:07 pm

    mas como assim você não se fodeu? Não é a regra do almeida se foder sempre que possível? kkk +1

  5. 6 Thais V 16/06/2011 às 10:04 pm

    E o Guilherme Legal, ficou chateado por ter sido chamado?

  6. 7 @raay_sb 16/06/2011 às 11:05 pm

    hahaah muito bom, vocês aí inundando a sala, a escola, aí vem a cidade, o mundo e o que mais? minhas broncas com a diretora sempre acabam em conversas e elogios, ser representante de turma tem seus pontos fortes.

  7. 8 @ericaiscoollike 16/06/2011 às 11:09 pm

    UAHAUAHAUAHUAHAUHA amei a desculpa de molhar as plantas.
    As freiras da minha escola não são assim ): A Irmã diretora provavelmente ia começar a falar “Porque os pai8s de vocês trabalham o mês inteiro para pagar a mensalidade da escola e comprar garrafinhas de água, e é assim que vocês retribuem? Jogando a água pela janela?”

  8. 9 @r_isaa 16/06/2011 às 11:36 pm

    não aconteceu nada com você? creio que o fim do mundo está bem proximo, é q

  9. 10 Mariana M. 16/06/2011 às 11:42 pm

    As irmãs de escolas são assim mesmo, você pensa que elas são todas chatas, duronas e corretas, mas quando você menos espera elas se tornam mais legais do que se pode imaginar LOL

  10. 11 @muzzyyeah 16/06/2011 às 11:51 pm

    como assim o outro Guilherme é o legal ? –‘ HUSDHUSAHDUSA
    na minha escola tbem tem irmãs, mas elas não são legais, nem fofas, nem nada que uma irmã deveria ser, a diretora é a pior da mafia kkk

  11. 12 Ana Bárbara 17/06/2011 às 12:26 am

    Regar plantas fez com que vocês não se fodessem, da próxima, plantem uma árvore, sei lá :3

  12. 13 Letícia 17/06/2011 às 12:59 am

    ficar falando “irmã” para uma coisa de brother!! ahaha
    Dessa vez, você não se fudeu, mó sem graça..
    Me diz: como você sobrevive a três andares todo dia?

  13. 14 Kaique 17/06/2011 às 6:56 am

    almeida, não se fodeu ?! QUE TIPO DE HISTORIA É ESSA ?

  14. 15 @leek4 17/06/2011 às 6:32 pm

    nossa, adorei.
    parece final de filme assim, haha
    *-*

  15. 16 E.L.D 17/06/2011 às 9:03 pm

    Milagre, o almeida ñ se fudeu.

  16. 17 Bruna Almeida 18/06/2011 às 12:37 pm

    Como assim vocês tiveram um maior bapo cabeça de bar com a irmã, A IRMÃ !?

  17. 18 Thereza F. 18/06/2011 às 3:37 pm

    O Meids não se fode nessa história? Qual é o ponto dela então? D:

  18. 19 suzana 19/06/2011 às 12:02 am

    pelo menos você não se fudeu LOL

  19. 20 @Grasiie 20/06/2011 às 12:43 am

    Incrível como tudo acontece com você Guilherme KKKKKKKKKKK

  20. 21 Alex Gama 22/06/2011 às 4:50 pm

    Almeida, as meninas de camisa molhada estavam usando sutias?? ‘kkk

  21. 22 fmattosa 22/06/2011 às 5:03 pm

    “fiquei imaginando o Almeida tendo uma ‘conversa de buteco’ com uma freira..” [2]

    AHSHSHSHSHSH, muito bom.
    Pra min, você é o guilherme legal, fazer o que ._.

  22. 23 lu 26/06/2011 às 9:49 pm

    ´hahahahah, muito booom!
    “fiquei imaginando o Almeida tendo uma ‘conversa de buteco’ com uma freira..” [3]

  23. 24 almeidaputa *-* 04/07/2011 às 7:47 pm

    UHDSAUDHUSAHUSAHDASUDHS guilherme legal e burro issoosim

  24. 25 Bia 28/07/2011 às 10:39 pm

    Porra Almeida, que escola é essa? As “irmãs” acreditaram mesmo que tudo isso não passou de uma brincadeira, na melhor das intenções? AUHSUAHSUHUSHAU Eu não ficaria nem um pouco com medo, vc não fez nada. Elas e os responsáveis por isso que se explodam :|. A melhor parte foi a irmã brigando pq as notas não estavam no computador hahahaah


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