Inundamos a sala de aula.

Parece que o momento mais retardado da vida escolar de um ser humano é enquanto ele está na quinta série. Sempre que você fez uma merda escolar e não sabe ao certo quando foi, você diz que foi “lá na quinta série”. Na minha turma, pelo contrário, nós fazemos merdas hoje em dia que nem na quinta série éramos retardados o suficiente para ter a audácia de fazer. E o pior – nós temos noção disso.

MAS É MUITO ENGRAÇADO, MANO.

A mongolisse a qual nos propomos nos últimos dias é aquela velha brincadeira de esconder o material um do outro, e ficar rindo da pessoa enquanto ela procura pelos mesmos. Brincar de esconder material é como pular de cabeça do topo de um prédio de 17 andares – não precisa ser um gênio pra chegar à conclusão de que dará em merda.

Nossa vítima favorita é o Luiz – casualmente chamado de LULU -, já que ele estressado faz Pânico na TV! parecer mais sem graça do que já é, e para estressá-lo é necessário não mais que uma pluma a quilômetro de distância. Sem contar que ele senta no meio de todo mundo – Eu na esquerda, Alonso na direita, Rodrigo atrás e Sérgio na frente e Lulu no meio. Uma suruba pentagonal.

Quando ele vira para um lado, a pessoa lado oposto rouba o caderno, a garrafa d’água, a mochila, o estojo, ou qualquer coisa que ele tenha na mesa. Às vezes, alguns aventureiros mais ousados levantam de seus lugares e vão até a mesa dele só para roubar alguma coisa. Como eles sentam mais longe, o material de Lulu fica espalhado pelos quatro cantos da sala, EXARCEBANDO, assim, o território inimigo no qual Lulu deve desbravar os mistérios para findar seus pertences. Com o tempo, percebemos que não precisávamos nos limitar aos espaços térreos, e começamos a colocar o material em cima da televisão da turma, no ventilador, e até mesmo no lado de fora das janelas.

E um bônus – ele demora a sentir a falta do negócio, o que deixa a brincadeira mais engraçada ainda. Ele continua escrevendo, fazendo piadas e se achando engraçado, por todos ao seu redor estarem rindo. Mas não estão rindo com ele, e sim dele.

Quando finalmente dá por falta do artefato, ele fica MUITO vermelho, começa a bater na mesa e a gritar pedindo o material. Como bons filhos da puta que somos, não dizemos onde está, até ele encontrar por si mesmo. Vivendo no Rio de Janeiro, ele precisa aprender a cuidar melhor de suas coisas. Estamos treinando-o para a vida. Queria eu ter amigos tão prestativos assim!

Teve uma vez em que ele estava esperneando por termos roubado sua mochila, e a professora o abordou com o clássico “posso ver o seu dever?” e ele “PODE, TÁ AQUI NA MINHA MESA!”, sendo que quando apontou para a mesa, havíamos roubado o caderno dele também. Ele esperneou mais ainda. Foi mais engraçado ainda.

Tudo corria bem até eu e Chayann – sim, o nome do moleque é CHAYANN – ignorarmos todos os nossos conhecimentos obtidos em filmes sobre traficantes de drogas e tentarmos expandir os horizontes da brincadeira a ponto de instalar um caos total na turma.

****A partir de agora, obrigue teu cérebro a sintetizar epinefrina, para que você seja capaz de sentir toda a emoção dos eventos que se decorrem****

Na hora do intervalo, esperamos todos saírem da sala e começamos o ataque. Colocamos o estojo do Rodrigo na mesa do professor, a mesa do Matheus em um canto da sala e a cadeira no outro, o estojo do Raphael dentro da mochila do Alonso, que por sua vez colocamos em outro canto da sala. O caderno do Nandão nós entregamos para um moleque DE OUTRA TURMA e colocamos a garrafa d’água do Lulu – que estava cheia – na janela da sala. Para não duvidarem de nós, escondemos nossos próprios estojos na mochila do Raphael.

Tudo estava perfeitamente distribuído e formulado por nossas mentes desocupadas. A empreitada teria êxito e o caos total se instalaria na sala de aula em questão de instantes. Ninguém suspeitaria dos verdadeiros culpados, afinal, eles também eram vítimas – ou pelo menos era isso que todos acreditavam.

O intervalo acabou e todos voltaram para a sala contentes por terem trocado figurinhas da Copa o intervalo inteiro. E então, a surpresa – PORRA, CARALHO, ONDE ESTÁ O MEU MATERIAL?

O terror e o medo se instalaram naquela humilde sala de aula carioca. Alguns se achavam injustiçados e pegavam o material dos outros para esconderem também. Alguns achavam o material de outros e os escondiam de volta. Não havia uma sequer alma naquela sala que não estivesse dando por falta de um estojo, ou um caderno – menos a Lalinha e a Gordinha, elas são chatas e não quiseram brincar.

Pessoas corriam para todos os lados, e até o pessoal das outras turmas começaram a invadir nossa sala para transportar materiais para a outra sala. Gravamos um vídeo do ocorrido:

Aí que chegou o professor de redação.

Ele havia passado um dever de casa cujo, de 30 alunos na turma, somente UM havia feito – a chata da Lalinha.

O cara ficou PUTO e distribuiu advertência para todos os alunos, o que não foi o suficiente para acalmar os ânimos. Até que, por fim, Lulu encontra sua garrafa d’água na janela e vai buscá-la. Antes que ele conseguisse pegá-la, no entanto, ela cai no chão e molha tudo ao seu redor.

Em uma escola normal, isso não acarretaria problema algum. Afinal, tem água no chão, espere 20 minutos e ele vai secar. Isso se chama CICLO DA ÁGUA, e não há nada que você possa fazer para pará-lo. Mas minha escola não é normal. Ela é regida por pessoas BABACAS, uma raça que até hoje eu tento incessantemente entender como funciona o cérebro, mas não chego a nenhuma conclusão satisfatória. O fato de ter água no chão foi o suficiente para que a inspetora do andar fosse até a turma e procurasse por um culpado por… bem, ter molhado o chão.

Agora, meus amigos, gostaria de lhes apresentar a foto de turma desse ano:

Eu estava de ótimo humor. Clique para vê-la ampliada.

Percebam que de 30 alunos, apenas um deles é negro – O Alonso. POR UMA IRÔNICA COINCIDÊNCIA DO DESTINO, ele foi o escolhido da inspetora para levar a culpa de toda a bagaça e ir para a diretoria.

Como se não bastasse o Alonso ter tomado esporro da diretoria por ter ÁGUA NO CHÃO, a diretora ainda FOI PARA A NOSSA TURMA dar esporro pessoalmente. “Eu sinto vergonha por vocês, alunos de segundo ano, se proporem a uma coisa tão ridícula como… JOGAR ÁGUA NO CHÃO”.

“Mas, Ô TIA, nós não jogamos água no chão. CAIU. Acontece, sabe?”
“E quem deixou cair?”
“Ninguém. Tava na janela, bateu um vento e caiu.”

E o pior de tudo é que essa era a mais pura verdade! Mas aí, a diretora, demonstrando que ela devia ter feito Direito no vestibular ao invés de virar diretora de uma escola babaca, nos perguntou o que nós não queríamos que ela perguntasse:

“E porquê a garrafa tava na janela?”

Depois de alguns constrangedores momentos de silêncio, o Chayann assumiu a culpa – que era dele mesmo, afinal, enquanto ele colocava a garrafa na janela, eu colocava a mesa do Matheus no fundo da sala. A mesa não causou a CALAMIDADE de ter INUNDAR A SALA.

A diretora deu um esporro que perdurou mais de metade do tempo de português, e foi embora.

Assim que ela virou de costas, caímos no riso e voltamos a esconder as coisas do Luiz.

Amanhã vou convocar meus conhecidos do segundo e do terceiro andar – minha sala é no primeiro – para estender o campo de procura do material. Até o fim do ano esconderemos a parada nos bairros vizinhos. A menos que arrumemos uma brincadeira mais idiota até lá, tipo abaixar a calça um dos outros ou jogar futebol com a tampinha do guaraná.

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8 Responses to “Inundamos a sala de aula.”


  1. 1 LarsRock 24/10/2010 às 8:46 pm

    Se você me disser que quer contratar traficantes pra esconder parte do material, eu não vou duvidar HASDUASDHUIHASDUIASD -ok, não foi tão má idéia assim -t

  2. 2 @CamiLikesJam 15/11/2010 às 7:07 pm

    Abaixar a calça uns dos outros, esconder material e jogar com latinhas.. tudo que minha classe faz, só esqueceu da parte que eles se agarram e rolam no chao e dizem “brincar de lutinha” eu chamo isso de “descobrir que é boiola”

  3. 3 Gaaby 28/01/2011 às 2:24 am

    Na minha sala os guris levam arminhas d’água. Trocar material é velho. E eles levaram já bolas pra jogar no meio da aula, aqueles sprays de neve artificial ~espuma~ e farinha.
    Mas uma vez jogaram um avião de papel com fogo na ponta pela janela e tacaram fogo num monte de folhas secas.

  4. 4 Gaaby 28/01/2011 às 2:25 am

    sem esquecer, da guerra de laranjas.-.

  5. 5 Mariana 30/05/2011 às 1:58 am

    Teve uma vez que na hora o intervalo, jogaram a mochila de um menino da minha sala no lixeiro :~

  6. 6 @raay_sb 16/06/2011 às 11:18 pm

    meu post preferido sempre vai ser esse :3 foi o primeiro que eu li aqui no blog eu acho, parabéns! hihi


  1. 1 Inundamos a escola « Nerd Calculista Trackback em 15/06/2011 às 11:52 pm
  2. 2 Nerd Calculista - Inundamos a escola | Nerd Calculista Trackback em 16/06/2011 às 7:18 am

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